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Belmiro de Almeida

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BIOGRAFIA

Belmiro de Almeida (Serro MG 1858 - Paris França 1935)

Pintor, desenhista, caricaturista, escultor, professor e escritor.

Freqüenta o Liceu de Artes e Ofícios e a Academia Imperial de Belas Artes - Aiba, entre 1869 e 1880, no Rio de Janeiro, onde estuda com Agostinho da Motta, Zeferino da Costa e José Maria de Medeiros. Em 1878, estuda com Henrique Bernardelli e Rodolfo Amoedo no Ateliê Livre. Leciona desenho no Liceu de Artes e Ofícios, de 1879 a 1883, e na Escola Nacional de Belas Artes - Enba, de 1893 a 1896. A partir de 1884, passa a viver entre Paris e Rio de Janeiro. A primeira viagem a Paris, em 1884, resulta num redirecionamento estético em seu trabalho, conseqüência do estudo e contato com obras de artistas e intelectuais que renovaram a arte do período: Édouard Manet e Edgar Degas na pintura e Gustave Flaubert e Émile Zola na literatura. Em sua segunda estada na capital francesa, iniciada em 1888, entra em contato com Georges Seurat na Ecole Nationale Supérieure dês Beaux-Arts [Escola Nacional Superior de Belas Artes] e estuda pintura com Jules Joseph Lefebvre e B. Constant et Pelez, aproximando-se de vertentes pós-impressionistas. No Rio de Janeiro, trabalha como caricaturista em diversas revistas, como Comédia Popular, Diabo a Quatro, A Cigarra, Bruxa e O Malho. Funda os periódicos Rataplan e João Minhoca, entre 1886 e 1901. É um dos criadores do Salão dos Humoristas, em 1914, e membro do Conselho Superior de Belas Artes, de 1915 a 1925.

Pouco conhecido do público geral, Belmiro é muito admirado pela qualidade de seu trabalho e pela inovação de suas propostas na arte do país. Bem humorado e brincalhão, era presença constante nas rodas boêmias. Dedicou-se à imprensa com caricaturas mordazes e textos satíricos e polêmicos. Ao usar cenas cotidianas e personagens da vida comum urbana como temas de sua pintura, causou impacto no meio artístico e abriu as portas para uma nova arte fazendo ponte às vanguardas do século XX.

O século XIX no Brasil foi marcado por fortes mudanças tanto na estrutura quanto na dinâmica e composição da sociedade que se reflete na arte do período.

Ainda arraigada aos velhos costumes ditados pelos conservadores mestres da Academia de Belas Artes, a produção artística nos anos próximos à Proclamação da República começava a se transformar. Uma nova geração se formava disposta a contestar preconceitos e a abrir caminhos menos austeros para a arte brasileira.

Os ares da revolução não se limitavam ás discussões políticas. Muitos alunos da Academia buscavam fora dessa instituição as respostas às novas questões que se impunham. Freqüentavam ateliês livres como o de Henrique Bernadelli e de Rodolfo Amoedo que abriam suas portas ao calor das mudanças republicanas.

Belmiro Barbosa de Almeida fazia parte da nova geração de contestadores ao lado de Visconti, Rafael Frederico, Décio Vilares, Fiúza Guimarães, entre outros.

Era um artista multifacetado: pintor, desenhista, escultor, caricaturista, poeta, humorista, jornalista e professor. De temperamento forte, era amável com os amigos e implacável com os desafetos, contra os quais usava de seu talento ferino e irreverente.

Como caricaturista, com piadas contundentes, charges e retratos críticos ele participou de diversas publicações inaugurando uma nova fase do gênero. Usava pseudônimos como os anagramas Romibel e Bromeli ao colaborar como caricaturista em "O Diabo da Meia Noite", "O Binóculo", "O Diabo a Quatro", "A Cigarra", "Ilustração Infernal" e "O Tagarela", além de fundar "O Rataplan" em 1886 e "João Minhoca" em 1901.

Todavia, como pintor suas inovações foram menos audaciosas. Apesar de ser pontuada por um humor sutil, sua pintura carrega bastante da influência acadêmica, uma vez que foi aluno do Liceu de Artes e Ofícios e da Academia Imperial de Belas Artes entre 1869 e 1880.

Seu papel revolucionário dentro do panorama da pintura brasileira são marcados pela qualidade de suas telas, pela escolha dos temas inesperados e pelo tratamento pictórico original que o colocam entre os renovadores que abriram as portas para o século XX.

Como bom desenhista, de um modo geral, tendia a subordinar as cores ao desenho, como se as primeiras fossem apenas ferramentas na valorização do último. Belmiro pintava desenhando em um trabalho rigoroso, detalhado e paciente. Usava poucas tintas, sem excessos, sem carregar a tela, preferindo esfregaços rápidos, pinceladas em toques pequenos em experiências próximas às do Pontilhismo. Assim, suaviza os contornos, fundindo as cores para conseguir mais uma vez explorar o desenho das obras.

Ambivalência

Belmiro de Almeida tinha uma relação com a Academia muito particular. Ao mesmo tempo em que a critica, não consegue abandoná-la. Enquanto ocupava a cadeira de Desenho na Escola Nacional de Belas Artes, substituindo Pedro Weingärtner, a convite de Rodolfo Bernadelli, ao lado de Di Cavalcanti, Helios Seelinger, Kalisto e J. Carlos, criou o Salão dos Humoristas, numa alusão irônica aos elitistas Salões de Belas Artes.

Sua irreverência, seu talento e as inovações que experimentava no campo artístico não permitem que se possa considerá-lo um conservador. Entretanto, sua atitude sempre ligada aos rigores acadêmicos e alguma relutância em se libertar totalmente de alguns cânones impedem que se possa classificá-lo completamente no grupo de artistas rebeldes. Soma-se a isso o fato de ser um professor da Escola Nacional de Belas Artes e ter ganhado vários prêmios nos Concursos da Academia (Menção Honrosa, Medalha de Prata e Medalha de Ouro em 1874/75/76/77/78/80/84). Essa ambigüidade não foi perdoada por alguns críticos e a obra de Belmiro de Almeida acabou sendo menosprezada durante o século XX. As revoluções que o Modernismo causou na forma de encarar a arte foram tão intensas que tudo que havia sido feito anteriormente ficou com ar de superado. Hoje em dia, a crítica da arte volta seus olhos novamente ao passado e vê no século XIX as grandes manifestações da pintura brasileira.

Belmiro de Almeida surge, então, como um dos mais autênticos e interessantes artistas do período com uma obra que merece destaque e estudos mais profundos.

As obras

O montante de obras pintadas por Belmiro não é numeroso, já que se dedicou a tantas diferentes atividades. Foi nos períodos de estágio passados entre França e Itália que produziu seus quadros de maior divulgação.

Em Arrufos de 1887, Belmiro é influenciado pela forte tendência na Itália daquela época, ligada ao realismo de Coubert, que voltava seus olhos para a vida comum. O tema surpreende o público brasileiro e se adapta às novas conjunturas políticas: não mais o Imperador ou o homem ilustre e solene é representado, e sim o burguês no interior de sua casa em meio aos acontecimentos triviais. No cuidado detalhado de cada pormenor e no tratamento laborioso que preenche cada parte do ambiente interno podemos relacionar esse quadro ao Descanso da Modelo de Almeida Júnior.

A influência italiana é ainda mais clara nos tipos populares representados em Camponesa Napolitana e Idílio Campestre. Neles as tintas são usadas em pequena quantidade deixando aparecer o suporte branco harmonioso no conjunto de ambientação luminosa.

Em Tagarela, a alegre serviçal abre um sorriso bem humorado encarando o observador. Em tons escuros a cena de interior ganha luminosidade no avental branco moldado com maestria. Tratada como retrato feminino, recorre aos esfregaços em tons terrosos criando transparências suaves. As pinceladas deixam as marcas dos toques e evitam os empastamentos comuns na pintura a óleo. A espacialidade é garantida pelo desenho do piso e a presença do móvel de madeira a direita. A vassoura jogada no chão faz contraponto às flores no canto superior oposto e indica a posição social da personagem. Seu rosto luminoso em uma expressão simpática atrai o olhar que desliza até suas mãos destacadas sobre o fundo branco.

Como escultor, produziu a peça Manequinho, figura de menino urinando em bronze criada para praça pública. É na verdade uma versão da obra Maneken-pis de Bruxelas e está hoje no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Entre outras esculturas fez o busto do industrial Antônio Seabra, seu amigo e protetor artístico, além de obras satíricas e figuras caricatas que chegou a passar ao bronze e o projeto escultórico de uma figura feminina para o túmulo de Afonso Pena.

Seu perfil engajado é revelado por alguns dados: foi o fundador e presidente do Sindicato dos Artistas em 1930, e ao falecer, em Paris no dia 12 de junho de 1935, deixa parte de seus bens para a Escola Nacional de Belas Artes apoiar os artistas com carência de recursos.

As influências estrangeiras

Muito de sua formação se deve às influências européias que recebeu no período de estudos entre Paris e Itália. Apesar de seu talento, o perfil contestador de suas obras impediu que Belmiro de Almeida vencesse o concurso da Academia Imperial de Belas Artes cujo prêmio era uma viagem de estudos à Europa. Com a ajuda de professores de mentes mais arejadas e conhecedores das qualidades do jovem, consegue uma subscrição que permite sua partida para a Europa em 1888.

No século XIX, Paris se tornou o centro onde encontros e intercâmbios de idéias e personagens de todos os continentes era possível. A elite brasileira de artistas e intelectuais também estava presente nesse grande palco.

De forma geral esse grupo de brasileiros tendia a se unir a outros grupos radicados na Cidade Luz. Os portugueses e italianos eram os mais acessíveis por diversos motivos como a proximidade cultural e mais especificamente, no caso de Belmiro de Almeida, a influência direta dos Bernadelli e de suas viagens á Itália. Por esse tempo, a unificação nacional e suas conseqüências políticas tinham levado muitos artistas italianos à Paris.

As influências do mercado, que fazia dos americanos enriquecidos os novos compradores de quadros, estimularam a valorização de um tipo de realismo elegante, sensual e exótico. O italiano De Nittis faz sucesso com suas telas inspiradas no naturalismo inglês de James Tissot (1836-1902), Millais e Alfredo Stevens. Belmiro de Almeida beberia da mesma fonte deixando transparecer na tela Arrufos o moralismo social vitoriano.

Em Paris, Belmiro fez parte do ateliê de Jules Lefrève, um dos pintores mais favorecidos pelo regime oficial. Esse fato é apontado por alguns analistas como um dos motivos, somado ao ambiente artístico retraído do Brasil, de sua pintura não ter se desenvolvido com tanta liberdade e inovação quanto seus desenhos e caricaturas.

Sua pintura tem fortes influências tanto francesas quanto italianas. O modismo parisiense chegou a influenciar o pintor, mas sempre sob o filtro de certo retraimento. Belmiro parece admirar a manifestação naturalista que ganhava força naquele período contra ao academicismo italiano. Certamente ele se identificou com esse caráter de contestação, próprio da tônica italiana. Algumas de suas telas, especialmente Dame a la rose podem ser associadas com características de Giovanni Boldini pela valorização da beleza feminina sensual e refinada. Além disso, os dois têm em comum o gosto pelo experimentalismo, se dedicando com talento às diversas correntes da pintura da época.

Entre os artistas brasileiros que nesse período estudaram em Paris, Belmiro foi um dos que mais assimilaram as novas tendências da vanguarda moderna. Nos últimos anos, em suas idas e vindas entre Paris e Rio de Janeiro, ainda que superficialmente, chegou a se aproximar dos aspectos mais genéricos de Futurismo e do Cubismo como na tela Mulher em Círculos de 1921.

Uma paisagem de Dampierre pintada em 1912 recebe um tratamento muito próximo ao Pontilhismo de Seurat. Sobre isso temos o testemunho de Antônio Bento publicado na Revista GAM n º5 de Abril de 1967 : "A tela de Belmiro de Almeida, uma pequena paisagem construída à maneira de Seurat, é excelente no gênero. Já revela a influência das idéias que conduziram a pintura francesa ao cubismo, através de Cézanne e do próprio Seurat".

Comentário crítico

Belmiro de Almeida ingressa na Academia Imperial de Belas Artes - Aiba, em 1874. Entre 1884 e 1885, com recursos próprios, viaja para Paris, onde toma contato com novas tendências da pintura. É atraído pelas idéias realistas dos escritores Émile Zola e Gustave Flaubert. No campo das artes, interessa-se por Édouard Manet e Edgar Degas.

Em 1887, expõe Arrufos, sua tela mais conhecida, que se destaca pela rigorosa fatura e pelo tom de leve ironia com o qual a cena é retratada. Em 1888, o crítico Gonzaga Duque, que segundo alguns historiadores estaria retratado nesse quadro, destaca a importância da obra, pela visão moderna do artista: "Ainda no Rio de Janeiro não se fez um quadro tão importante como é este".1 O pintor inova ao abordar um tema relacionado à vida cotidiana, com enfoque realista. Atuando na passagem do século XIX para o século XX, empreende uma pintura nova ao deixar de lado os temas da pintura histórica para se ocupar de assuntos mais prosaicos da sociedade contemporânea. O crítico também elogia a técnica de Belmiro: "As tintas são claras e simpáticas, os toques são rápidos, largos e bem lançados. Nenhuma pretensão a empastamento, nenhuma pretensão a mancha descurada, se notam neste trabalho. O toque é sempre apropriado".2 Belmiro exibe assim, provocativamente, suas qualidades de pintor.

O historiador Reis Júnior destaca a relação difícil entre o artista, de espírito inconformado, e o meio em que vive: a ausência de respaldo às novas tendências na arte leva-o a não abandonar definitivamente os trabalhos mais conservadores, capazes de garantir-lhe a sobrevivência.

Concorre ao prêmio de viagem ao exterior da Aiba, em 1888. Não obtém o prêmio, mas vai para a Europa nesse ano, com auxílio de colegas da Academia, principalmente de Rodolfo Bernardelli. Visita a Itália, onde pinta algumas paisagens, mas fica a maior parte do tempo em Paris. As viagens entre Rio de Janeiro e Paris foram constantes em sua carreira. Na França, vivencia um momento de transformações no campo da pintura. Realiza o quadro Efeitos de Sol, 1892, que traz a evocação de um mundo camponês, com uma paisagem estruturada em manchas de cor, que se destaca pelo caráter inovador, se comparado com a pintura que então se praticava no Brasil.

Em Os Descobridores, 1899, evita o tratamento heróico que o tema do descobrimento do Brasil sugere: esses são dois pobres homens, exaustos, ao pé de uma árvore desfolhada. A paisagem é totalmente árida e desolada, transmitindo a sensação de abandono, que é reforçada pelo tratamento cromático: uma luminosidade que se espalha uniformemente pela superfície. Belmiro recusa a monumentalidade à obra, porém lhe confere uma concepção e um tratamento plástico muito originais. Em A Tagarela, 1893, representa uma personagem popular, que interrompe uma atividade doméstica. Destaca-se nesse quadro o domínio no uso da linha, que estrutura a composição, aliado ao cuidadoso trabalho com a cor, como ocorre também em Dame à la Rose, 1905. Em obras como Retrato de Abigail Seabra, 1900 ou Paisagem em Dampierre, 1919, o artista inspira-se na técnica pontilhista, as pinceladas curtas valorizam os tons, mas obedecem à orientação dos planos. Já Mulher em Círculos, 1921, dialoga com a estética do futurismo.

Belmiro de Almeida revela, ao longo de sua carreira grande ecletismo: experimenta constantemente novas técnicas, às quais alia a interpretação pessoal e a maestria na fatura das obras. Paralelamente à carreira de pintor, tem uma importante atividade como caricaturista, à qual deve boa parte de seu prestígio, trabalhando em importantes jornais e revistas da época: O Malho, Diabo a Quatro e A Cigarra, entre outros, e fundando O Rataplan (1886) e João Minhoca (1901). Manifesta na caricatura o interesse por assuntos sociais, representa os contratempos do cotidiano, no trabalho e no lazer, em charges cáusticas. Artista de espírito polêmico e inconformado, sua obra tem caráter inovador no panorama das artes brasileiras.

Notas

1 DUQUE, Gonzaga. A arte brasileira. Introdução Tadeu Chiarelli. Campinas: Mercado de Letras, 1995, p. 212.
2 Idem, p. 213.

Críticas 

"(...) Os assuntos históricos têm sido o maior interesse dos nossos pintores que, empreendendo-os, não se ocupam com a época nem com os costumes que devem formar os caracteres aproveitáveis na composição dessas telas. Belmiro é o primeiro, pois, a romper com os precedentes, é o inovador, é o que, compreendendo por uma maneira clara a arte de seu tempo, interpreta um assunto novo. Vai nisto uma questão séria - menos o de uma predileção do que a de uma verdadeira transformação estética. O pintor, desprezando os assuntos históricos para se ocupar de um assunto doméstico, prova exuberantemente que compreende o desideratum das sociedades modernas, e conhece que a preocupação dos filósofos de hoje é a humanidade representada por essa única força inacessível aos golpes iconoclastas do ridículo, a mais firme, a mais elevada, a mais admirável das instituições - a família. É desta arte que o povo necessita porque é a que lhe fala intimamente das alegrias e das desilusões, cujos sulcos ainda permanecem em seu coração".
Luiz Gonzaga Duque-Estrada
DUQUE, Gonzaga. A arte brasileira: pintura e esculptura. Rio de Janeiro: s. ed. , 1888, p. 190.

"(...) o autor do precioso realismo do pequeno quadro Arrufos, do Museu Nacional de Belas Artes, fizera, nos anos que antecederam a Semana de Arte Moderna, incursões experimentais e suaves pelo divisionismo de Signac e Seurat, tanto na técnica pontilhista como na composição desses neo-impressionistas; bem como uma clara e única experimentação de aparência futurista de que temos conhecimento no Brasil no curioso Mulher em Círculos (1921), onde a dinâmica que caracteriza as obras desse movimento está visível através do retrato tratado - mas não construído, daí o seu pseudofuturismo - com sobreposições de figuras geométricas. É possível que os modernistas de então rejeitassem Belmiro de Almeida por terem sido essas obras simples exemplos de virtuosismo e não representarem uma adesão às novas idéias. Porém parece-me, antes, que provavelmente não pudesse ser seu nome cogitado, ou por desconhecimento desses trabalhos, ou por sua relação com a Escola Nacional de Belas Artes, onde por longos anos foi professor. O certo, contudo, é que havia alguns exemplos de tentativas de modernidade em certas obras de artistas ligados à arte da Academia, muito embora elas fossem esporádicas e talvez desvestidas daquela juventude que os novos desejavam. (...) Mas pelo grupo que compôs a Semana de Arte Moderna, o desejo era realmente apresentar um time novo, sem relações com o passado. Aqui também, o rompimento se nota".
Aracy Amaral
AMARAL, Aracy A. Artes plásticas na Semana de 22: subsídios para uma história da renovação das artes no Brasil. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1979. (Debates, 27), p. 140.

"(...) Há quem o considere um revolucionário da pintura brasileira, já que suas telas, realizadas em Paris e Roma, apresentam, tanto na concepção dos temas como no tratamento pictórico, uma fisionomia inteiramente original com relação a tudo o que até então faziam nossos pintores. (...) Mas não escapou Belmiro à influência do ensino acadêmico a que, de certo modo, se submeteu aqui pelas contingências inevitáveis e na Europa, particularmente em Paris, por ter procurado um dos ateliês mais conservadores e favorecido oficialmente, o do pintor Jules Lefébvre. Esse contato não lhe permitiu, seguramente, a libertação que seu espírito rebelde necessitaria para afirmar-se convenientemente, distanciado da modorra conservadora de que sua pintura em parte se reveste, condicionada a um desenho meticuloso e nada expansivo. O desenhista não acompanhava o pintor, que se demonstrava bem mais ambicioso. (...) Bem observada, sua pintura deixa ver fontes francesas como italianas, tanto pela evidente admiração por um naturalismo que se manifestava na península contra a velha pintura acadêmica, como pela influência de certo modismo parisiense que não vencia o bom comportamento do trabalho de ateliê. Daí se demonstrar Belmiro acessível a uma renovação com flagrante retraimento. Conservou sempre um gosto pictórico muito pessoal em que a cor era rigorosamente subordinada ao desenho, ou, melhor dizendo, como se a cor cuidasse de prolongar o desenho, impedindo um maior desembaraço da fatura".
Quirino Campofiorito
CAMPOFIORITO, Quirino. História da pintura brasileira no século XIX. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1983, p. 199-200.

"Ao passo que Belmiro de Almeida palmilhou a senda de Seurat e, quiçá, a estrada de Cézanne. Ele viveu a efervescência artística de Paris na transição do século. Assistiu, com a sua inteligência sempre alerta às novidades e com a vivacidade do seu espírito, o surgimento do Impressionismo, a que se filiou. Alguns anos depois, presenciou a evolução das teorias impressionistas sob os impulsos de um dos seus mais ardorosos neófitos, George Seurat. Belmiro apreende o sentido dessa evolução e acompanha-a. Efeitos de Sol é um estudo impressionista, simplesmente, como o são os primeiros trabalhos de Seurat, os seus estudos, as suas manchas, de onde saíram as paisagens estruturadas de Honfleurs e as suas grandes composições, as quais vão muito além do Impressionismo: a técnica deste é de instinto e instantaneidade, a daquelas é de reflexão e permanência. 
(...)
Processo que o aproxima de Seurat que ... elimina o claro-escuro (...) espalha sobre suas composições uma luz geral difusa, sem relação com a iluminação real. Processo que Belmiro empregará, doravante, em seus trabalhos, conforme podemos verificar em Nu Adolescente, de 1904, e sobretudo em Amuada, 1905/1906, (...) Esse trabalho é mais do que isso, é mais do que obra de um enamorado do lirismo do mestre francês: é trabalho de uma inteligência lúcida conquistada pelas suas teorias. Aqui, a presença do mestre das Poseuses é flagrante, não somente na distribuição da luz diluindo as sombras como, também na ciência das pinceladas curtas justapondo e valorizando os tons; e, o que mais relevante, obediente à orientação dos planos, arquiteturando, assim, a autonomia do quadro. Trabalho que acompanharemos Belmiro realizando através da série de paisagens européias, constituídas de poucas obras, aliás, mas que nos dão dos seus laboriosos estudos uma seqüência no tempo, elucidativa da seriedade dos seus propósitos. Dentre outras, essa série inclui Paisagens de Dampierre (1912); Le Chemin de la Ferme e Pont sur le Quillon-Fourchiroles (1920); A Roseira do Quintal (1923) e Moulin Godart (1927)".
José Maria Reis Júnior
REIS JÚNIOR, José Maria. Belmiro de Almeida 1858-1935. Prefácio Quirino Campofiorito. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1984. 120 p., il. p&b. color. (Série prata, 10), p. 55-57.

"Belmiro (...) punha fim à época em que a arte brasileira ainda era prisioneira da retórica dos gêneros e se fundamentava na transposição em chave nacional da tradição européia. Dava início a uma arte nova, inspirada na realidade social urbana contemporânea, falando da transformação dos costumes no interior da família e da condição da mulher na sociedade moderna. Era uma pintura que objetivava a educação moral do público, imitando o exemplo da pintura vitoriana inglesa, mas adotando a estética do naturalismo francês. O artista deixava de ser uma espécie de sumo sacerdote do culto da nação, passando a recusar a idéia de uma pintura celebrativa, promovida pelo Estado e distante da representação da atualidade. Assim, como Amoedo e Aurélio Figueiredo, Belmiro tentava encarnar o modelo do artista dandy, o intelectual urbano que fazia de sua arte um estilo e um modo de vida (...)"
Luciano Migliaccio
MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO (2000: SÃO PAULO, SP), AGUILAR, Nelson (org. ), SASSOUN, Suzanna (coord. ). Arte do século XIX. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo: Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000. p. 148.

"Belmiro de Almeida não se contentou em ocupar um lugar insigne na pintura do final da Monarquia. Apresenta-se como um artista cujo fazer não se satisfaz com o sucesso público. O retrato do Pereira Passos surge com uma urdidura divisionista, que alcança o ápice no muro fundo e no terno do retratado e explode nos milhares de fogos de artifício colorísticos, como se cada molécula do Hausmann do Hemisfério Sul obedecesse ao ritmo vertiginoso das picaretas que destroem os pardieiros. O rosto, levemente reticulado, impõe-se como o centro do redemoinho das micropinceladas, dando uma aura oriental ao protagonista. Belmiro repara nas revoluções vanguardistas e as glosas em Mulher em Círculos ou Mãe e Filho, oferecendo os primeiros exemplares do futurismo entre nós. As divisões de tons que merecem todos os cuidados desse pintor que se deleita em encontrar as manchas de sol dignas de serem eternizadas em telas de um pontilhismo extremamente recatado, geométrico, sem atingir no entanto a essencialidade da obra de Seurat".
Nelson Aguilar
MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP, AGUILAR, Nelson (org.), SASSOUN, Suzanna (coord.). Arte moderna. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo: Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000. 255 p., il. color. p. 35.

Acervos

Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo/Brasil - São Paulo SP
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp - São Paulo SP
Museu Histórico e Diplomático do Itamaraty - Brasília DF
Museu Mariano Procópio - Juiz de Fora MG
Museu Nacional de Belas Artes - MNBA - Rio de Janeiro RJ
Museus Castro Maya - IPHAN/MinC - Rio de Janeiro RJ

Exposições Individuais

1887 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Casa de Wilde
1887 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Aiba
1890 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no Ateliê Livre do Largo São Francisco
1917 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Jorge

Exposições Coletivas

1882 - Rio de Janeiro RJ - Mostra, na Sociedade Propagadora de Belas Artes
1884 - Rio de Janeiro RJ - 26ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba - medalha de prata
1890 - Rio de Janeiro RJ - Exposição Geral de Belas Artes, na Enba - prêmio aquisição
1894 - Rio de Janeiro RJ - 1ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba - medalha de ouro de 2ª classe
1896 - Rio de Janeiro RJ - 3ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1898 - Rio de Janeiro RJ - 5ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1900 - Rio de Janeiro RJ - 7ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1905 - Rio de Janeiro RJ - 12ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1906 - Rio de Janeiro RJ - 13ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1907 - Rio de Janeiro RJ - 14ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1909 - Rio de Janeiro RJ - 16ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1916 - Rio de Janeiro RJ - Salão dos Humoristas, no Liceu de Artes e Ofícios
1921 - Rio de Janeiro RJ - 28ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba - grande medalha de ouro
1923 - Paris (França) - Salão de Paris 
1926 - Rio de Janeiro RJ - 33ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba

Exposições Póstumas

1941 - Rio de Janeiro RJ - 47º Salão Nacional de Belas Artes
1942 - Rio de Janeiro RJ - Exposição de Pintura Religiosa, no MNBA
1944 - Rio de Janeiro RJ - A Paisagem Brasileira, no MNBA
1946 - São Paulo SP - 12º Salão Paulista de Belas Artes, na Galeria Prestes Maia
1948 - Rio de Janeiro RJ - Retrospectiva da Pintura no Brasil, no MNBA
1950 - Rio de Janeiro RJ - Um Século da Pintura Brasileira: 1850-1950, no MNBA
1954 - Rio de Janeiro RJ - Exposição de Retratos Femininos, no MNBA
1956 - Rio de Janeiro RJ - Exposição de Retratos Masculinos, no MNBA
1957 - Rio de Janeiro RJ - O Nu na Arte, no MNBA
1970 - São Paulo SP - Individual, no MAB/Faap
1970 - São Paulo SP - Pinacoteca do Estado de São Paulo 1970
1972 - São Paulo SP - A Semana de 22: antecedentes e conseqüências, no Masp
1974 - Rio de Janeiro RJ - Reflexos do Impressionismo, no MNBA
1976 - São Paulo SP - O Retrato na Coleção da Pinacoteca, na Pinacoteca do Estado
1979 - Belo Horizonte MG - 6º Salão Global de Inverno, na Fundação Clóvis Salgado. Companhia de Dança de Minas Gerais
1980 - Buenos Aires (Argentina) - Ochenta Años de Arte Brasileño, no Banco Itaú
1982 - Bauru SP - 80 Anos de Arte Brasileira
1982 - Marília SP - 80 Anos de Arte Brasileira
1982 - São Paulo SP - 80 Anos de Arte Brasileira, no MAB/Faap
1983 - Belo Horizonte MG - 80 Anos de Arte Brasileira, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1983 - Campinas SP - 80 Anos de Arte Brasileira, no MACC
1983 - Curitiba PR - 80 Anos de Arte Brasileira, no MAC/PR
1983 - Ribeirão Preto SP - 80 Anos de Arte Brasileira
1983 - Rio de Janeiro RJ - História da Pintura Brasileira no Século XIX, na Acervo Galeria de Arte, no MNBA
1983 - Santo André SP - 80 Anos de Arte Brasileira, na Prefeitura Municipal de Santo André
1983 - São Paulo SP - História da Pintura Brasileira no Século XIX, na Acervo Galeria de Arte, na Pinacoteca do Estado
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1986 - Porto Alegre RS - Caminhos do Desenho Brasileiro, no Margs
1986 - São Paulo SP - Dezenovevinte: uma virada no século, na Pinacoteca do Estado
1989 - Fortaleza CE - Arte Brasileira dos Séculos XIX e XX nas Coleções Cearenses: pinturas e desenhos, no Espaço Cultural da Unifor
1991 - São Paulo SP - O Desejo na Academia: 1847-1916, na Pinacoteca do Estado
1993 - Rio de Janeiro RJ - Brasil: 100 Anos de Arte Moderna, no MNBA
1994 - São Paulo SP - Bienal Brasil Século XX, na Fundação Bienal
1994 - São Paulo SP - Um Olhar Crítico sobre o Acervo do Século XIX, na Pinacoteca do Estado
1998 - Rio de Janeiro RJ - Imagens Negociadas: retratos da elite brasileira, no CCBB
1999 - São Paulo SP - A Figura Feminina no Acervo do MAB, no MAB/Faap
2000 - Lisboa (Portugal) - Século 20: arte do Brasil, no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão
2000 - Porto Alegre RS - De Frans Post a Eliseu Visconti: acervo Museu Nacional de Belas Artes - RJ, no Margs
2000 - Rio de Janeiro RJ - Quando o Brasil era Moderno: artes plásticas no Rio de Janeiro de 1905 a 1960, no Paço Imperial
2000 - São Paulo SP - A Figura Feminina no Acervo do MAB, no MAB/Faap
2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento, na Fundação Bienal
2001 - Rio de Janeiro RJ - Aquarela Brasileira, no Centro Cultural Light
2001 - São Paulo SP - 30 Mestres da Pintura no Brasi, no Masp
2001 - São Paulo SP - Trajetória da Luz na Arte Brasileira, no Itaú Cultural
2002 - Brasília DF - Barão do Rio Branco: sua obra e seu tempo, no Ministério das Relações Exteriores. Palácio do Itamaraty
2002 - Niterói RJ - Arte Brasileira sobre Papel: séculos XIX e XX, no Solar do Jambeiro
2002 - Rio de Janeiro RJ - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2002 - São Paulo SP - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2002 - São Paulo SP - Imagem e Identidade: um olhar sobre a história na coleção do Museu de Belas Artes, no Instituto Cultural Banco Santos
2003 - Brasília DF - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2004 - São Paulo SP - O Preço da Sedução: do espartilho ao silicone, no Itaú Cultural

Fonte: Itaú Cultural, EntreCulturas

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