Mestre Paquinha (Teresina, Piauí, 1957)
Mestre Paquinha, nome artístico de Marcos Fernando Rodrigues da Silva, é um escultor autodidata e um dos nomes mais expressivos da escultura popular piauiense contemporânea. Sua obra é reconhecida pela forte identidade autoral e, sobretudo, pela criação dos chamados Múltiplos, esculturas em madeira de cedro que articulam forma, fé e experiência social a partir da realidade do sertão nordestino.
A trajetória artística de Mestre Paquinha teve início aos 16 anos, quando passou a entalhar peças utilitárias em madeira, estabelecendo de modo intuitivo uma relação direta com o material e suas possibilidades expressivas. No início de sua carreira, foi convidado a frequentar a oficina do Mestre Cornélio, um dos mais tradicionais santeiros e entalhadores do Piauí. Embora breve, essa experiência foi decisiva para sua formação técnica. Ainda assim, Mestre Paquinha optou por seguir um caminho autoral, afastando-se dos modelos estritamente tradicionais da arte santeira e desenvolvendo uma linguagem própria, capaz de expressar sua vivência, suas referências culturais e sua percepção da vida no sertão.
O primeiro trabalho de Mestre Paquinha a receber reconhecimento foi a escultura que retrata um nordestino retirando água de um poço, criada para uma feira realizada no bairro onde residia. Inspirada em uma cena cotidiana e emblemática da vida sertaneja, a obra marcou um ponto de inflexão em sua trajetória. A partir desse momento, Mestre Paquinha passou a dedicar-se integralmente à escultura em madeira, orientando sua produção por temas relacionados ao cotidiano nordestino, à religiosidade popular e às condições sociais impostas pela aridez do sertão.
A obra de Mestre Paquinha se consolida com a criação dos Múltiplos, denominação atribuída pelo próprio artista às suas esculturas. Sobre o termo, Paquinha afirma: “dizem que faço oratórios, mas não são oratórios. São Múltiplos”. Embora frequentemente associados a oratórios religiosos, seus trabalhos não se enquadram nessa categoria tradicional. Os Múltiplos não são compostos por blocos independentes esculpidos separadamente, mas concebidos como uma experiência global, orgânica e em constante transformação, na qual as figuras se encaixam ou se dissociam, formando composições flexíveis, abertas e de forte impacto visual.
Talhadas em madeira de cedro — muitas vezes interligadas por fitas de couro — as esculturas de Mestre Paquinha apresentam figuras alongadas, ritmadas e cerimoniais, que evocam procissões, retirantes e lavradores em deslocamento. A procissão surge como metáfora recorrente em sua obra, remetendo tanto ao rito religioso quanto à caminhada coletiva dos sertanejos em busca de sobrevivência. A temática central de sua produção aborda a aridez do sertão, o ciclo das secas, a fome e a fé como forças de resistência, organização comunitária e esperança.
As figuras criadas por Mestre Paquinha frequentemente carregam cabaças e sementes, elementos simbólicos associados à sobrevivência e à expectativa por uma boa colheita. As sementes representam a confiança nos ciclos da terra e no futuro, enquanto as cabaças evocam a necessidade vital da água e a engenhosidade popular diante da escassez. A fé, em sua obra, manifesta-se não apenas como devoção formal, mas como prática cotidiana profundamente ligada à experiência social do sertanejo.
Elemento recorrente nos Múltiplos de Mestre Paquinha é a presença do sabiá, pássaro que, segundo a tradição popular nordestina, canta apenas quando a chuva se aproxima. Em suas esculturas, o sabiá atua como símbolo de transformação, anunciação e esperança por dias melhores, sendo levado junto aos retirantes como sinal de confiança na chegada da chuva e na renovação da vida. Esse elemento reforça a conexão entre o homem, a natureza e os ciclos do tempo, ampliando a dimensão poética e simbólica de sua produção artística.
O caráter inovador dos Múltiplos de Mestre Paquinha encontrou resistência inicial no mercado, já que as peças não se enquadravam nos formatos tradicionais dos oratórios religiosos. Conforme relato do próprio artista, muitos comerciantes relutavam em comercializar as obras por não reconhecê-las como oratórios convencionais. O reconhecimento ocorreu de forma emblemática quando um turista alemão adquiriu uma das esculturas, fato que contribuiu para a aceitação e valorização de seu trabalho. A partir desse episódio, os Múltiplos passaram a circular com maior reconhecimento institucional e comercial.
Mestre Paquinha participou de diversas feiras de artesanato brasileiro e salões de arte em importantes centros culturais, como Teresina, Brasília e São Paulo. Em 1983, recebeu o primeiro prêmio no IV Salão de Arte Santeira, promovido pela Universidade Federal do Piauí, marco relevante em sua trajetória artística e no reconhecimento de sua contribuição para a escultura popular brasileira.
Dotado de sólido domínio técnico e forte identidade autoral, Mestre Paquinha construiu uma obra que dialoga profundamente com a cultura nordestina, sem se limitar a uma abordagem estritamente tradicional ou regionalista. Seus Múltiplos constituem um testemunho sensível da experiência sertaneja, transformando madeira, fé e movimento em uma linguagem artística singular, marcada pela invenção formal, pela memória coletiva e pela resistência cultural.