Flávio Motta

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Biografia

Flávio Motta (São Paulo, SP 1923 - 2016)

Professor, historiador da arte, desenhista e pintor.

No fim dos anos 1930, Flávio Lichtenfelds Motta começou a desenhar e fazer esculturas no ateliê do escultor José Cucê, na época presidente do Sindicato dos Artistas Plásticos, e conhece vários artistas. Na década seguinte, frequenta os ateliês de Joaquim Figueira, Mário Zanini, Raphael Galvez e Sylvio Alves, entre outros. Divide um ateliê na avenida São João com Raphael Galvez, Sylvio Alves e Odetto Guersoni. Forma-se em filosofia na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo - USP. Começa a lecionar história da arte. Em 1949, com os artistas Bonadei, Nelson Nóbrega, Alfredo Volpi, Waldemar da Costa e Waldemar Amarante, cria a Escola Livre de Artes Plásticas, de curta duração. No final do anos 1950, cria o curso de formação para professores do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp, que é posteriormente transferido para a Fundação Armando Álvares Penteado - Faap. Torna-se professor de história da arte e estética no departamento de história da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU/USP, onde auxilia o arquiteto e professor Vilanova Artigas na reformulação do currículo escolar. Participa ativamente do debate político que envolve os arquitetos da FAU/USP e publica textos de história da arte. Em 1965, expõe pinturas no Masp e desenhos na Galeria Goeldi, Rio de Janeiro. Em 1967, na esquina da rua Augusta com a avenida Brasil, São Paulo, faz uma intervenção com Nelson Leirner, em que eles ostentam bandeiras regionais e de futebol. São reprimidos pela polícia, mas repetem a intervenção no Rio de Janeiro, com outros artistas. Em 1973, Flávio expõe na galeria Grupo B, Rio de Janeiro. Ganha o prêmio de arte-comunicação da Associação Paulista dos Críticos de Arte - APCA em 1975, pelos painéis realizados no Elevado Costa e Silva. Faleceu em 8 de julho de 2016, na cidade de São Paulo.

Comentário Crítico

Flávio Motta começa pintando retratos e paisagens ao ar livre, em que figuram temas campestres como pastos, pequenas casas, gado, árvores e riachos. Sua produção dessa época se aproxima das paisagens de Raphael Galvez (1907 - 1998) e Francisco Rebolo (1902 - 1980), entre outros. A pincelada é livre e o traço é pouco marcado. A cor é aplicada por manchas e as tonalidades são rebaixadas. Nessas pinturas, a preocupação com a paleta não permite que seu desenho encontre a melhor expressão: nem tudo convence nas proporções e a cor é muito uniforme.

É nos desenhos, quando acentua a linha pura, que se destaca. Em Redondo Quadrado, de 1941, as formas estão trocadas: a natureza (árvores, por exemplo) é quadrada e a produção humana (casas, por exemplo) é redonda. Encontramos a ironia e o uso muito particular da linha, ao mesmo tempo preciso e irônico, que vemos em obras posteriores, como nos cadernos de desenhos Aluno sem Perspectiva Procura Ponto de Fuga e Homem sem Perspectiva Encontra Ponto de Fuga e desenhos como O Gato - Sem Dúvida, dos anos 1970. Como a historiadora Ana Maria Belluzzo observa, Motta persegue a reta e a curva com o humor de Alexander Calder (1898 - 1976) e a sinceridade de Paul Klee (1879 - 1940)1.

A afinidade com a linha e o desenho certamente ajuda a levá-lo a exercer o magistério na  FAU/USP, pois a arquitetura não tem relação com a cor e o preenchimento, mas sim com o projeto e o fazer construtivo. A importância do fazer para o artista se manifesta já na época da Escola Livre de Artes Plásticas. Ele considera que a arte não pode ser ensinada no sentido tradicional do termo e, por isso, quer que os alunos aprendam a resolver problemas na prática, com o mínimo de teorização. Na FAU/USP, liga-se a Vilanova Artigas (1915 - 1985) e participa da reforma do ensino, trazendo novos métodos e interdisciplinaridade ao currículo.

Engaja-se nos debates políticos do período. Alinha-se a Vilanova Artigas, Oscar Niemeyer (1907) e Paulo Mendes da Rocha (1928), cuja atuação defende contra as críticas feitas por Sérgio Ferro (1938), Flávio Império (1935 - 1985) e Rodrigo Lefèvre (1938 - 1984). Estes condenam o otimismo e o apoio de seus professores ao desenvolvimentismo brasileiro que, além de não atingir os objetivos sociais almejados, vincula-se à ditadura. Motta defende uma arquitetura e urbanismo que não se baseiem em desenvolvimentos pressupostos, como considera ser o caso de Brasília.

Em 1970, explicita sua posição ao publicar dois textos em que, por um lado, reafirma seu comprometimento com o projeto moderno dos anos 1940 e 1950 e, por outro, exalta os valores universais da arte2. Ao narrar a formação do Brasil, no texto Introduzione al Brasile, descreve a coincidência entre o desenvolvimento industrial brasileiro e as aspirações populares e lembra a legislação social avançada e a implantação da indústria de base obtidas durante o Estado Novo Ao final, como contraponto necessário a esse pronunciamento feito no auge do Golpe Militar de 64, afirma que, independentemente de sua funcionalidade, Brasília demonstra a consciência política presente na formação do arquiteto3. Defende o projeto de Paulo Mendes da Rocha para o pavilhão brasileiro na exposição Expo'70, ressaltando seu caráter humanista e transcendente e enfatizando valores universais, como se fossem a maneira de lidar com a realidade política imediata do país, sem abrir mão dos ideais políticos.4

A atividade política e acadêmica de Motta na FAU/USP é seu principal legado. Em seus estudos de história da arte, investiga a relação entre arquitetura, industrialização e sociedade, interessando-se pelo art nouveau. Seus textos quase sempre tratam de temas ligados ao modernismo, tais como A época do SPAM, de 1953; uma introdução à Família Artística Paulista, de Mário de Andrade, de 1971; Paulo Mendes da Rocha, de 1967; e Trabalho de um Pintor: Portinari, de 1972.

Notas
1 BELLUZZO, A. M., in Depoimentos sobre Flávio Motta, Caramelo, n. 6, p. 41-53, ago. 1993.
2 ALVES, A. A. A. Arquitetura e sociedade em São Paulo 1956 - 1968: projetos de Brasil moderno. 2003. 311 f. Dissertação (mestrado) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU/USP, São Paulo. 2003, p. 172 e s.
3 MOTTA, F. L. Introduzione al Brasile. Zodiac. n. 6, p. 61-67, 1958/59.
4 MOTTA, F. L. Arquitetura brasileira para a Expo 70'. Acrópole, São Paulo, n. 372, p. 25-26, abr. 1970.

Exposições Individuais

1963 - São Paulo SP - Individual, na Galeria de Arte São Luís
1965 - São Paulo SP - Individual, no Masp
1965 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Goeldi
1967 - São Paulo SP - Bandeiras e Flâmulas, na Galeria Atrium
1973 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Grupo B
1975 - Curitiba PR - Individual, no Teatro Guaíra

Exposições Coletivas

1944 - São Paulo SP - 9º Salão do Sindicato dos Artistas Plásticos, na Galeria Prestes Maia
1967 - São Paulo SP - Bandeiras na Praça, na Esquina da Avenida Brasil com a Rua Colombia
1968 - Rio de Janeiro RJ - Bandeiras na Praça, na Praça General Osório
1976 - São Paulo SP - O Desenho Jovem dos Anos 40, na Pinacoteca do Estado
1977 - São Paulo SP - Os Grupos: a década de 40, no Museu Lasar Segall
1978 - São Paulo SP - A Arte e seus Processos: o papel como suporte, na Pinacoteca do Estado
1978 - São Paulo SP - Uma Amizade e Um Ateliê, no Museu Lasar Segall
1979 - São Paulo SP - Volta à Figura: década de 60, no Museu Lasar Segall
1979 - São Paulo SP - Matrizes, Filiais e Companhias, no Sesc
1982 - São Paulo SP - Marinhas e Ribeirinhas, no Museu Lasar Segall
1985 - São Paulo SP - Tendências do Livro de Artista no Brasil, no CCSP
1987 - São Paulo SP - A Trama do Gosto: um outro olhar sobre o cotidiano, na Fundação Bienal
1994 - Belo Horizonte MG - O Efêmero na Arte Brasileira: anos 60/70
1994 - Penápolis SP - O Efêmero na Arte Brasileira: anos 60/70, na Galeria Itaú Cultural
1994 - São Paulo SP - O Efêmero na Arte Brasileira: anos 60/70, no Itaú Cultural
1995 - São Paulo SP - 1st United Artists, na Casa das Rosas
1996 - Brasília DF - O Efêmero na Arte Brasileira: anos 60/70, na Galeria Itaú Cultural
1996 - São Paulo SP - Ex Libris/Home Page, no Paço das Artes
2004 - São Paulo SP - Gabinete de Papel, no CCSP

Fonte: Itaú Cultural