Conceição dos Bugres (1914 – 1984)
Conceição dos Bugres foi uma escultora brasileira de origem indígena, reconhecida como uma das maiores artesãs do Centro-Oeste, especialmente do Mato Grosso do Sul. Sua obra é centrada na criação de figuras indígenas denominadas “Bugres”, esculturas em madeira que se tornaram símbolos da arte, cultura e identidade sul-mato-grossense. Por sua relevância, a Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul nomeou uma premiação anual em sua homenagem: a medalha Conceição dos Bugres, considerada o “Oscar dos artesãos” no estado.
Conceição dos Bugres nasceu em 8 de dezembro de 1914, em Povinho de Santiago, Rio Grande do Sul. Ainda criança, migrou com a família para o Mato Grosso do Sul devido à perseguição aos povos indígenas durante a imigração europeia para o Sul do Brasil. Aos 6 anos, passou a residir em Ponta Porã, cidade de fronteira com o Paraguai, onde cresceu em contato profundo com a natureza, aprendendo com o pai o uso de ervas medicinais e desenvolvendo habilidades como benzedeira. Em 1957, mudou-se para Campo Grande, capital do estado. Um de seus filhos, o pintor Ilton Silva, também se tornou um artista reconhecido regionalmente e foi fundamental para a divulgação do trabalho de Conceição dos Bugres.
Na década de 1960, o trabalho de Conceição dos Bugres ganhou visibilidade quando seu filho apresentou suas esculturas ao artista plástico Humberto Espíndola e à produtora cultural Aline Figueiredo, fundadores da Associação Mato-Grossense de Artes (AMA), que se tornaram seus primeiros admiradores e divulgadores. Nos anos 1970, já com mais de 50 anos, Conceição dos Bugres participou de exposições regionais e nacionais, recebendo reconhecimento artístico, embora sem conseguir ganhos financeiros significativos. Ela faleceu em 1984, em condições de pobreza.
As esculturas conhecidas como Bugres são figuras humanas de traços indígenas, geralmente feitas em madeira, com golpes secos e retos de facão, recobertas com cera de abelha e detalhes em carvão. Originalmente, Conceição dos Bugres iniciou esculpindo cepas de mandioca, inspirada pela forma natural que lembrava rostos humanos. Cada peça possuía personalidade própria, apesar de apresentar características recorrentes, como corpo roliço, posição vertical e cabeça chata. Ela também classificava algumas esculturas como “índios mansos” ou “negrinhos”, oferecendo estas últimas como amuletos a amigos, em um gesto de generosidade e conexão afetiva. Para Conceição dos Bugres, suas esculturas tinham vida própria, e a relação com elas era maternal: muitas receberam nomes e foram cuidadosamente individualizadas.
O trabalho de Conceição dos Bugres dialoga com várias tradições artísticas, incluindo os Moais da Ilha de Páscoa, a arte egípcia, os totens kadiwéus, a pintura Abaporu de Tarsila do Amaral, ex-votos nordestinos e o minimalismo de Brancusi. O termo “bugre”, historicamente pejorativo, foi ressignificado por Conceição dos Bugres, tornando-se um ícone cultural que remete à sua origem étnica e à perseguição sofrida na infância pelos chamados bugreiros, que perseguiam os povos indígenas.
Conceição dos Bugres é considerada a primeira escultora do Mato Grosso do Sul a obter reconhecimento nacional. Ao lado de Lídia Baís, ela figura como um dos nomes centrais da arte sul-mato-grossense, embora enquanto Baís se situe mais no campo da arte erudita, Conceição dos Bugres se consagre na arte popular. Suas esculturas são símbolos fortes da iconografia popular identitária do estado e refletem as condições sociais e políticas dos povos indígenas nas regiões de fronteira. Apesar do reconhecimento, houve um apagamento de sua obra nos acervos públicos; a maior parte das peças integra coleções particulares, com exceções como o Museu Afro Brasil e o Itaú Cultural.
Em 1979, o cineasta Cândido Alberto da Fonseca realizou um documentário sobre Conceição dos Bugres, cujo material sofreu deterioração, mas foi restaurado em 2016, passando a ser considerado patrimônio do Mato Grosso do Sul. O trabalho da artista recebeu, pela primeira vez, uma exposição monográfica em um museu em 2021, no MASP, intitulada “Conceição dos Bugres: tudo é da natureza do mundo”, com curadoria de Fernando Oliva e assistente Amanda Carneiro, consolidando sua importância para a arte brasileira.
O legado artístico de Conceição dos Bugres permanece vivo através de seus descendentes: após sua morte, seu marido Abílio e seu filho Ilton continuaram a produzir os Bugres, e atualmente seu neto Mariano Antunes Cabral Silva mantém a tradição, garantindo que a técnica e a memória familiar sigam vivas. Ao completarmos 110 anos de seu nascimento em 2024, celebramos a trajetória de Conceição dos Bugres como uma artista visionária, que transformou a madeira em memória viva e consolidou os Bugres como símbolos de resistência, criatividade e identidade cultural sul-mato-grossense.
Exposições Individuais
1971 - Rio de Janeiro RJ - 5 Artistas de Mato Grosso, na Galeria Ibeu de Copacabana
1972 - São Paulo SP - Arte/Brasil/Hoje: 50 anos depois, na Galeria da Colectio
1974 - São Paulo SP - Bienal 74, na Fundação Bienal de São Paulo
2001 - Rio de Janeiro RJ - Expressão Popular, no Centro Cultural Light
2004 - Campo Grande MS - Bugres: Conceição e sua gente, no Museu de Arte Contemporânea do Mato Grosso do Sul (MARCO)
2004 - São Paulo SP - Forma, Cor e Expressão: uma coleção de arte brasileira, na Estação São Paulo
2021 - São Paulo SP - Conceição dos Bugres: tudo é da natureza do mundo, no Museu de Arte de São Paulo (MASP)