Aleijadinho (Ouro Preto MG 1730 - idem 1814)
Aleijadinho, nome pelo qual ficou conhecido Antônio Francisco Lisboa, foi escultor, arquiteto e entalhador, considerado o principal artista do Brasil colonial. Sua produção é uma das mais importantes do barroco brasileiro, com obras que ainda hoje são referência para historiadores, colecionadores e estudiosos da arte.
Aleijadinho nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, em data ainda debatida por pesquisadores. Registros tradicionais indicam 1730, enquanto documentos sugerem que pode ter nascido em 1738. Faleceu em 1814, aos 76 anos. Era filho do arquiteto português Manoel Francisco Lisboa com uma mulher africana escravizada, contexto que torna sua trajetória artística ainda mais significativa dentro da sociedade colonial.
Sua formação ocorreu principalmente na prática, ao lado do pai e de mestres atuantes em Vila Rica, atual Ouro Preto. Há indícios de influência de artistas como Francisco Xavier de Brito e José Coelho Noronha, além do contato com gravuras europeias de temática religiosa. Esses elementos contribuíram para o desenvolvimento de um estilo próprio, marcado pela expressividade e pelo detalhamento escultórico.
O nome de Aleijadinho aparece pela primeira vez em documentos de 1766, quando recebeu a encomenda da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Após a morte do pai, em 1767, passou a assumir maior protagonismo profissional. Em 1772, ingressou na Irmandade de São José e, poucos anos depois, teve um filho no Rio de Janeiro, Manoel Francisco Lisboa, que também se tornou artista.
A partir de 1777, sua vida e obra foram profundamente impactadas por uma doença grave, possivelmente lepra nervosa, que causou deformidades físicas progressivas. Mesmo assim, manteve intensa atividade artística. Nesse período, suas obras passaram a apresentar maior dramaticidade e força expressiva, características marcantes do barroco mineiro.
Durante a década de 1780, consolidou-se como o artista mais requisitado de Minas Gerais, participando de importantes projetos religiosos. A partir de 1790, atingiu o auge de sua carreira, com grande reconhecimento e volume de encomendas.
A produção de Aleijadinho é extensa e documentada, com obras distribuídas por igrejas e cidades históricas. Seu ateliê contava com diversos assistentes, o que permitiu a realização de projetos de grande escala, como os conjuntos escultóricos de Congonhas.
O ponto mais alto de sua trajetória ocorreu entre 1796 e 1805, no Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, onde criou um dos conjuntos mais importantes da arte brasileira. Nesse período, produziu 66 esculturas em madeira representando os Passos da Paixão de Cristo e esculpiu em pedra-sabão os famosos 12 Profetas. Essas obras consolidaram Aleijadinho como o maior nome do barroco brasileiro e autor de um dos mais relevantes conjuntos escultóricos ao ar livre do mundo.
Momento histórico em que viveu Aleijadinho
Aleijadinho viveu em um período de intensas transformações políticas, sociais e econômicas no Brasil colonial do século XVIII. Sua trajetória está diretamente ligada ao contexto da exploração do ouro em Minas Gerais, às tensões sociais e ao controle rigoroso exercido pela Coroa portuguesa.
Nos primeiros anos de vida, Aleijadinho teve contato com relatos sobre as violências promovidas pelo governador Pedro de Almeida, responsável por ações repressivas em Vila Rica. Esses episódios revelam um cenário marcado pela desigualdade e pela repressão, especialmente contra populações escravizadas.
Ainda jovem, Aleijadinho vivenciou um ambiente de instabilidade política, com rivalidades entre paulistas e outros grupos envolvidos na exploração aurífera. Também sofreu os impactos da administração de Luiz da Cunha Menezes, cuja gestão intensificou tensões locais. As consequências dos conflitos entre paulistas e emboabas continuavam presentes e influenciaram o contexto social em que o artista se desenvolveu.
Durante sua juventude, Aleijadinho acompanhou o crescente descontentamento com a cobrança dos “quintos”, imposto que destinava parte significativa do ouro à Coroa portuguesa. Com o esgotamento progressivo das jazidas, essa cobrança tornou-se ainda mais pesada para a população. Nesse contexto, o interesse da metrópole levou à transferência do centro administrativo colonial para o Rio de Janeiro, o que redefiniu o eixo econômico da colônia.
Ao longo de sua vida, Aleijadinho presenciou também a forte atuação do clero em Minas Gerais. Ordens religiosas obtinham autorização para explorar ouro e financiar a construção de igrejas e conventos, frequentemente erguidos com trabalho escravizado. Esse cenário favoreceu o desenvolvimento da arte sacra, campo em que Aleijadinho se destacou de forma decisiva.
Apesar dos conflitos, crimes e disputas entre mineradores, religiosos e autoridades, a região prosperou economicamente. A então chamada Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Albuquerque, atual Ouro Preto, tornou-se símbolo da riqueza aurífera e o principal cenário da atuação de Aleijadinho, onde sua obra se consolidou como um dos maiores legados do barroco brasileiro.
Aleijadinho foi invenção do governo Vargas
Aleijadinho permanece como uma das figuras mais emblemáticas da arte brasileira, mas sua trajetória também é objeto de debates historiográficos. Entre as interpretações contemporâneas, destaca-se a análise do pesquisador Dalton Sala, que questiona a consolidação da imagem do artista como mito nacional.
Segundo Dalton Sala, a figura de Aleijadinho teria sido amplamente construída e reforçada durante o governo de Getúlio Vargas, especialmente no contexto do Estado Novo. Nesse período, o artista passou a ser interpretado como símbolo da identidade brasileira, representando a mestiçagem, a superação e a criatividade diante da adversidade.
De acordo com essa perspectiva, a atribuição de autoria a Aleijadinho nem sempre se apoia em documentação conclusiva. Sala argumenta que nem todas as obras associadas ao artista possuem comprovação textual direta, o que teria contribuído para a construção de uma narrativa ampliada sobre sua produção. Nesse contexto, a atuação do SPHAN, criado em 1937, teria sido fundamental para a valorização e difusão de figuras consideradas representativas da cultura nacional.
Na interpretação de Sala, Aleijadinho foi alçado à condição de símbolo cultural, enquanto Tiradentes assumia o papel de símbolo político. Ambos teriam sido incorporados ao imaginário nacional como expressões de autonomia, ainda que em esferas distintas. O pesquisador ressalta, no entanto, que a construção do mito de Aleijadinho antecede o período Vargas, tendo sido posteriormente apropriada e institucionalizada.
Um dos primeiros registros biográficos sobre Aleijadinho foi publicado em 1858 por Rodrigo José Ferreira Bretas, no Correio Oficial de Minas. Bretas afirmava ter encontrado um manuscrito datado de 1790 com informações sobre Antônio Francisco Lisboa. No entanto, esse documento, conhecido como Livro de registros de fatos notáveis da cidade de Mariana, nunca foi localizado, o que levanta questionamentos sobre sua autenticidade e sobre as bases documentais da biografia do artista.
A discussão sobre a autoria das obras atribuídas a Aleijadinho também envolve o posicionamento de especialistas. Conforme destacado por Dalton Sala, o historiador de arte Germain Bazin teria revelado, em 1989, ter sofrido pressões de Rodrigo Melo Franco de Andrade e do arquiteto Lúcio Costa para reconhecer determinadas obras como autênticas, mesmo na ausência de comprovação definitiva.
Esse debate evidencia que Aleijadinho, além de sua importância artística incontestável, ocupa também um lugar central nas discussões sobre memória, patrimônio e construção da identidade cultural brasileira. Para pesquisadores e estudiosos, compreender essas múltiplas camadas é essencial para uma análise crítica e aprofundada do legado do artista.
Acróstico prova a existência do Santo-bruxo, tombado
Aleijadinho é amplamente reconhecido por sua contribuição decisiva ao barroco mineiro, mas sua obra também tem sido objeto de interpretações simbólicas e leituras que vão além da dimensão estética. Em especial, o conjunto dos Profetas em Santuário do Bom Jesus de Matosinhos tem suscitado análises que associam sua produção a possíveis significados ocultos e construções alegóricas.
Ao longo do tempo, surgiram hipóteses que sugerem que Aleijadinho teria incorporado camadas simbólicas complexas em sua iconografia sacra, reinterpretando modelos do barroco europeu e do rococó em chave própria. Essas leituras, no entanto, não são consensuais entre historiadores da arte e devem ser compreendidas como parte do campo interpretativo que envolve sua obra.
Registros históricos indicam que, no início do século XX, o padre Júlio Engrácia, então responsável pelo santuário em Congonhas, teria promovido intervenções que reduziram a visibilidade de elementos associados às esculturas atribuídas a Aleijadinho. Esse episódio é frequentemente citado em estudos que discutem a preservação, a autoria e a recepção crítica do artista ao longo do tempo.
Uma das interpretações mais difundidas, embora controversa, é a hipótese de um acróstico formado pelas iniciais dos doze profetas esculpidos em pedra-sabão. Segundo essa leitura, os nomes Abdias, Baruc, Ezequiel, Jonas, Jeremias, Amós, Daniel, Joel, Naum, Habacuc, Oséias e Isaías formariam, simbolicamente, o nome “Aleijadinho”. Para sustentar essa construção, argumenta-se que o uso das letras “J” com valor fonético de “I” e a inclusão de Isaías poderiam ter sido soluções intencionais do artista.
Do ponto de vista historiográfico, essa hipótese não possui comprovação documental e é tratada com cautela por especialistas. Ainda assim, ela contribui para a percepção da obra de Aleijadinho como um campo fértil para interpretações que articulam arte, religiosidade e simbolismo.
O conjunto dos doze profetas de Congonhas, composto por quatro profetas maiores, sete menores e a figura de Baruc, permanece como uma das realizações mais significativas da arte colonial brasileira. Independentemente das leituras simbólicas, essas esculturas consolidam Aleijadinho como referência central na história da arte no Brasil, evidenciando domínio técnico, expressividade e forte impacto visual.
A obra de Aleijadinho continua a despertar interesse de pesquisadores, colecionadores e estudiosos da arte brasileira. Sua produção, marcada por intensidade expressiva e inserida no contexto da religiosidade colonial, permanece aberta a novas interpretações, reafirmando sua relevância no debate artístico e cultural contemporâneo.
Um grito de libertação: independência ou morte!
Aleijadinho é frequentemente associado ao contexto intelectual e político do final do século XVIII em Minas Gerais, período marcado por tensões que culminariam na Inconfidência Mineira. Embora não haja comprovação direta de seu envolvimento com o movimento, sua produção artística é por vezes interpretada à luz dos ideais de liberdade e crítica à ordem colonial.
Nesse contexto, alguns autores estabelecem paralelos entre Aleijadinho e Tomás Antônio Gonzaga, figura central da Inconfidência e autor das Cartas Chilenas, escritas sob o pseudônimo Critilo. Essa aproximação, no entanto, deve ser compreendida como interpretativa, uma vez que não existem evidências documentais que confirmem vínculos diretos entre o escultor e os inconfidentes.
Certas leituras sugerem que elementos simbólicos presentes nas obras de Aleijadinho, especialmente no conjunto do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, poderiam refletir conhecimentos de tradição simbólica europeia, incluindo possíveis referências à iconografia maçônica. Essas interpretações se apoiam na análise de gestos, posturas e indumentárias das esculturas, mas permanecem no campo das hipóteses, sendo objeto de debate entre historiadores da arte.
O adro do santuário, onde se encontram os doze profetas esculpidos em pedra-sabão, é frequentemente descrito como um espaço de forte carga expressiva. Nele, Aleijadinho articula elementos da tradição barroca com uma linguagem própria, marcada pela intensidade dramática e pela capacidade de traduzir experiências humanas universais, como sofrimento, fé e redenção.
Algumas interpretações simbólicas atribuem significados numerológicos ao conjunto dos doze profetas, associando-o a conceitos de harmonia e totalidade. Essas leituras, embora não comprovadas documentalmente, reforçam o interesse contínuo pela obra de Aleijadinho como campo de investigação que ultrapassa a análise formal e iconográfica tradicional.
Mais do que possíveis associações políticas ou esotéricas, a produção de Aleijadinho se destaca pela força expressiva e pela relevância histórica no contexto da arte colonial brasileira. Seu legado permanece fundamental para a compreensão do barroco no Brasil e continua a mobilizar pesquisadores, colecionadores e estudiosos interessados nas múltiplas dimensões de sua obra.
Aleijadinho: se uma invenção, e daí?
Aleijadinho permanece no centro de debates historiográficos que questionam não apenas sua biografia, mas também a autoria das obras que lhe são atribuídas. O pesquisador Dalton Sala levanta dúvidas sobre a documentação que sustenta a atribuição de determinadas esculturas a Antônio Francisco Lisboa, contribuindo para um campo crítico em expansão na história da arte brasileira.
No entanto, mais do que a controvérsia sobre a autoria, a discussão em torno de Aleijadinho abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre a natureza da arte e sua relação com a verdade histórica. Diferentes correntes de pensamento oferecem perspectivas distintas. Abordagens positivistas priorizam a comprovação documental, enquanto interpretações contemporâneas, especialmente no campo da teoria da arte, enfatizam o papel da leitura e da recepção na construção de sentido.
Nesse contexto, a obra atribuída a Aleijadinho, em especial o conjunto do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, pode ser compreendida para além da questão autoral. As esculturas de Congonhas mantêm sua relevância estética, simbólica e histórica independentemente da confirmação absoluta de autoria, dialogando com diferentes épocas e públicos.
A trajetória de Aleijadinho evidencia que a arte não se limita a registros factuais. Sua produção, inserida no contexto do barroco mineiro, articula dor, fé, tensão e expressividade, constituindo um legado que ultrapassa o tempo. Assim como obras clássicas da tradição ocidental continuam a ser reinterpretadas, as esculturas atribuídas ao artista permanecem abertas a novas leituras críticas.
Outro aspecto relevante nesse debate é a própria noção de autoria. No período colonial, a produção artística frequentemente envolvia oficinas e processos coletivos, nos quais a individualização do autor não era central como se tornaria na modernidade. A valorização do nome do artista está ligada a transformações culturais e econômicas posteriores, especialmente a partir da consolidação de uma lógica de mercado da arte.
Dessa forma, discutir Aleijadinho implica considerar tanto os limites da documentação histórica quanto a autonomia da criação artística. Sua obra continua a ocupar um lugar central na arte brasileira, não apenas por sua possível autoria, mas pela potência estética e simbólica que expressa.
Mais do que uma questão de comprovação, Aleijadinho permanece como referência fundamental para a compreensão do barroco no Brasil. Seu legado resiste às controvérsias e se afirma como objeto de estudo, contemplação e reflexão, mantendo-se vivo no debate cultural e acadêmico contemporâneo.
Produção Artística
Aleijadinho alcançou o auge de sua produção artística já na maturidade, quando, com mais de sessenta anos, realizou em Congonhas algumas de suas obras mais emblemáticas. Destacam-se as esculturas em pedra-sabão dos Doze Profetas, executadas entre 1800 e 1805, no adro da igreja, e as 66 imagens em madeira de cedro que compõem os Passos da Paixão de Cristo, iniciadas em 1796, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.
A concepção do santuário evidencia o caráter inovador de Aleijadinho, que articulou arquitetura, escultura e paisagem em um conjunto integrado. No adro, as figuras dos profetas Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oséias, Jonas, Joel, Abdias, Habacuc, Amós e Naum foram talhadas em pedra-sabão e distribuídas de forma estratégica. Os gestos e posturas conferem dinamismo às esculturas, criando a sensação de movimento e diálogo, característica marcante do barroco mineiro e elemento central na experiência do observador.
Ao longo da ladeira que conduz ao santuário, Aleijadinho estruturou seis capelas, conhecidas como Passos da Paixão de Cristo. Em cada uma delas, conjuntos escultóricos em tamanho natural narram episódios da Paixão, estabelecendo uma sequência narrativa que combina arte sacra, devoção e participação do fiel. Esse percurso integra espaço urbano e religiosidade, reforçando a dimensão simbólica e sensorial do conjunto.
Toda a produção de Aleijadinho se concentrou em Minas Gerais, região onde atuou intensamente e recebeu numerosas encomendas ao longo da vida. Apesar do reconhecimento em seu tempo, sua obra passou por um período de relativo esquecimento após sua morte. A redescoberta ocorreu em 1858, com a publicação da biografia escrita por Rodrigo José Ferreira Bretas. Posteriormente, o reconhecimento crítico foi consolidado no século XX, especialmente após a Semana de Arte Moderna de 1922, quando o barroco passou a ser valorizado como expressão fundamental da cultura brasileira.
Nos últimos anos de vida, Aleijadinho enfrentou o agravamento de sua doença, o que o levou a um progressivo isolamento. Assistido por poucos colaboradores, perdeu a visão e deixou de produzir. Faleceu em 1814, em Ouro Preto, então Vila Rica, encerrando uma trajetória singular na história da arte. Seu legado, no entanto, permanece como um dos mais importantes do barroco brasileiro, sendo objeto contínuo de estudo, preservação e admiração.
Aleijadinho e a Arte Barroca
Aleijadinho é reconhecido como um dos principais expoentes da arte barroca no Brasil, sendo figura central para a compreensão da produção artística no período colonial. O barroco, desenvolvido na Europa Ocidental entre os séculos XVI e XVIII, caracteriza-se pela monumentalidade, pela riqueza ornamental e pela intensidade dramática. No século XVIII, esse estilo evoluiu para o rococó, linguagem mais leve e decorativa, que também influenciou a obra de Aleijadinho.
A produção de Aleijadinho dialoga com tradições artísticas europeias adaptadas ao contexto colonial. Em primeiro lugar, o barroco surge como reação à estética renascentista, marcada pelo equilíbrio, pela simetria e pela racionalidade formal. Em contraste, artistas barrocos exploraram dinamismo, movimento e expressividade, utilizando linhas curvas e composições mais complexas para intensificar o impacto visual e emocional das obras.
Outro fator relevante foi o uso do barroco como instrumento de afirmação de poder. Na Europa, monarquias absolutistas recorreram à monumentalidade artística para expressar autoridade e grandeza, como exemplificado em construções como Palácio de Versalhes e Zwinger. Esse modelo influenciou, ainda que indiretamente, a produção artística nas colônias, onde a arquitetura e a escultura também assumiram funções simbólicas de prestígio e representação.
A Contra-Reforma constitui o terceiro elemento fundamental para a compreensão do barroco. O movimento impulsionou uma arte voltada à exaltação da fé católica, marcada por forte apelo emocional e didático. Igrejas e esculturas passaram a comunicar narrativas religiosas de forma envolvente, característica presente nas obras de Aleijadinho, especialmente em seus conjuntos escultóricos sacros.
Atuando em Minas Gerais no século XVIII, Aleijadinho incorporou essas influências ao contexto local, marcado pela economia mineradora e pela atuação de irmandades religiosas. O barroco brasileiro desenvolveu-se nesse ambiente como uma das primeiras expressões artísticas de identidade no país. Nesse cenário, Aleijadinho elaborou uma linguagem própria, que combina técnica refinada, expressividade dramática e profunda religiosidade.
A obra de Aleijadinho sintetiza, portanto, a adaptação do barroco europeu às condições culturais e sociais do Brasil colonial. Seu legado permanece fundamental para pesquisadores, colecionadores e estudiosos da arte brasileira, consolidando-o como referência central na história da arte no país.
Críticas
"Como arquiteto e ornamentista, o Aleijadinho trouxe o galardão supremo ao barroco português. Como escultor, se erigiu formas grandiosas das quais a civilização portuguesa não oferecia nenhum equivalente, não foi por espírito de revolução, mas, ao contrário, pelo despertar das forças criadoras que dariam à civilização luso-brasileira o grande artista-poeta que, depois de Nuno Gonçalves, ela não soube mais produzir".
Germain Bazin
BAZIN, Germain. O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil. 2. ed. rev. aum. Rio de Janeiro: Record, 1963. p. 111.
"O Brasil deu nele o seu maior engenho artístico, eu creio. Uma grande manifestação humana. A função histórica dele é vasta e curiosa. No meio daquele enxame de valores plásticos e musicais do tempo, de muito superior a todos como genialidade, ele coroava uma vida de três séculos coloniais. Era de todos, o único que se poderá dizer nacional, pela originalidade das suas soluções. Era já um produto da terra, e do homem vivendo nela, e era um inconsciente de outras existências melhores de além-mar: um aclimado, na extensão psicológica do termo. Mas, engenho já nacional, era o maior boato-falso da nacionalidade, ao mesmo tempo que caracterizava toda a falsificação da nossa entidade civilizada, feita não de desenvolvimento interno, natural, que vai do centro pra periferia e se torna excêntrica por expansão, mas de importações acomodatícias e irregulares, artificial, vinda do exterior. De fato Antônio Francisco Lisboa profetizava para a nacionalidade um gênio plástico que os Almeida Juniores posteriores, tão raros! são insuficientes pra confirmar.
Por outro lado, ele coroa, como gênio maior, o período em que a entidade brasileira age sob a influência de Portugal. É a solução brasileira da Colônia. É o mestiço e é logicamente a independência".
Mário de Andrade
[Texto escrito originalmente em 1928 e publicado no livro O Aleijadinho e Álvares de Azevedo. Rio de Janeiro: R. A. Editora, 1935.].
ANDRADE, MÁRIO DE. Aspectos das artes plásticas no Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. p. 41 (Obras completas de Mário de Andrade, 12).
"Antônio Francisco Lisboa nasceu em 29 de agosto de 1730, no arrabalde desta cidade, que se denomina O Bom Sucesso, pertencente à freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Filho natural de Manuel Francisco da Costa Lisboa, distinto arquiteto português, teve por mãe uma africana ou crioula de nome Isabel, escrava do mesmo Lisboa, que o libertou por ocasião de fazê-lo batizar.
Antônio Francisco Lisboa era pardo escuro, tinha voz forte, a fala arrebatada e o gênio agastado; a estatura era baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, a testa volumosa, o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e basto, a testa larga, o nariz regular e algum tanto pontiagudo, os beiços grossos, as orelhas e o pescoço curto. Sabia ler e escrever e não consta que tivesse freqüentado alguma outra aula além da de primeiras letras, embora alguém julgue provável que tivesse frequentado a de latim.
O conhecimento que tinha do desenho, de arquitetura e escultura fora obtido na escola prática de seu pai e talvez na do desenhista João Gomes Batista, que, na Corte do Rio de Janeiro, recebera as lições do acreditado artista Vieira e era empregado como abridor de cunhos da Casa de Fundição de Ouro desta capital. Depois de muitos anos de trabalho, tanto nesta cidade como fora dela, sob as vistas e risco de seu pai, que até então era tido na província como o primeiro arquiteto, encetou Antônio Francisco Lisboa a sua carreira de mestre de arquitetura e escultura e nesta qualidade excedeu a todos os artistas deste gênero que existiram no seu tempo.
Até a idade de 47 anos, em que teve um filho natural ao qual deu o mesmo nome de seu pai, passou a vida no exercício de sua arte, cuidando sempre em ter boa mesa, e no gozo de perfeita saúde; e tanto que era visto muitas vezes tomando parte nas danças vulgares. De 1777 em diante, as moléstias provindas talvez em grande parte de excessos venéreos começaram a atacá-lo fortemente. Pretendem uns que ele sofrera mal epidêmico que sob o nome de zamparina pouco antes havia grassado nesta província, e cujos resíduos, quando o doente não sucumbia, eram quase infalíveis deformidades e paralisias: e outros que nele se havia complicado o humor gálico com o escorbútico. O certo é que ou por ter negligenciado a cura do mal no seu começo, ou pela força invencível do mesmo, Antônio Francisco perdeu todos os dedos dos pés, do que resultou não poder andar senão de joelhos; os das mãos atrofiaram-se e curvaram e mesmo chegaram a cair, restando-lhe somente, ainda assim quase sem movimento, os polegares e os índices. As fortíssimas dores que de contínuo sofria nos dedos e a acrimônia do seu humor colérico o levavam por vezes ao excesso de cortá-los ele próprio, servindo-se do formão com que trabalhava".
Rodrigo José Ferreira Bretas
[Texto escrito originalmente em 1858 e publicado no Correio Oficial de Minas, nos números 169 e 170, com o título Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa, distinto escultor mineiro, mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho.].
BARBOSA, Waldemar de Almeida. O Aleijadinho de Vila Rica. São Paulo: Edusp; Belo Horizonte: Itatiaia, 1988. 94 p. (Reconquista do Brasil. 3. Série especial, 1).
"A contradição fundamental entre o estilo da época - elegante e amaneirado - e o ímpeto poderoso do seu temperamento apaixonado e tantas vezes místico, contradição magistralmente superada, mas latente e que, por isso, de quando em quando extravasava - é a marca indelével da sua obra, o que lhe dá o tom singular, e faz deste brasileiro das Minas Gerais a mais alta expressão individualizada da arte portuguesa do seu tempo. Deve-se, aliás, assinalar que essa modalidade mineira de arte colonial portuguesa no Brasil apresenta, por vezes, maior afinidade com o barroco-rococó de entre o Danúbio e os Alpes do que com a arte metropolitana que a gerou.
A religiosidade do Aleijadinho cresceu na medida do seu íntimo convívio com a hagiografia e com a Bíblia; e do isolamento a que se impôs, em consequência da moléstia, resultou uma profunda comunhão de sua arte com a fé. As inúmeras sentenças e os versículos que participam da composição dos púlpitos e retábulos de sua autoria se devem, indubitavelmente, à sua própria iniciativa e escolha, porquanto não ocorrem na obra de nenhum outro entalhador".
Lucio Costa
COSTA, Lúcio. Antônio Francisco Lisboa, o "Aleijadinho". In: O UNIVERSO mágico do barroco brasileiro. São Paulo: Sesi, 1998. p. 169.
"Embora tenha feito seu aprendizado básico na área da escultura de relevos ornamentais, sob direção do português João Gomes Batista, formado por sua vez em Lisboa com o artista francês Antoine Mengin, o Aleijadinho (1735-1814) deixou também obras importantes no campo da estatuária monumental e imaginária sacra, daí advindo grande parte de sua reputação de principal artista brasileiro do período colonial. Em duas de suas portadas, as das igrejas de São João Batista de Barão de Cocais e São Miguel e Almas de Ouro Preto, figuram nichos com estátuas de santos padroeiros em pedra-sabão. Executadas cerca de trinta anos antes do conjunto dos doze Profetas do Santuário de Congonhas, do período de 1800-1805, essas estátuas oferecem uma boa base comparativa para análise da evolução estilística do Aleijadinho, do naturalismo e movimentação contida e algo desajeitada, da primeira fase de sua carreira, à estilização e libertação das formas no espaço, na fase final.
Já idoso e praticamente entrevado pela doença que lhe valeu o apelido, o artista teve numerosos auxiliares nesta monumental obra de Congonhas, mencionados nos seus recibos anuais com o título de 'oficiais', segundo a tradição medieval, ainda mantida na organização social do trabalho na era colonial. Desta colaboração resultaram deformações de caráter diverso, perceptíveis a uma análise mais atenta, mas que desaparecem quando o espectador se coloca no ponto de vista ideal para a visão do conjunto, ou seja, frontalmente, a cerca de 5 metros do portão de acesso. Este indício revela algo do sistema de divisão de trabalho em vigor na 'oficina' do Aleijadinho, que reservara para si as partes mais importantes e mais claramente visíveis das estátuas, assim como seu conhecimento de um dos aspectos fundamentais da estética barroca, a intencionalidade teatral".
Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira
OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. Escultura no Brasil colonial. In: O UNIVERSO mágico do barroco brasileiro. São Paulo: Sesi, 1998. p. 131.
Acervos
Acervo Banco Itaú S.A. - São Paulo SP
Capela da Ordem Terceira de São Francisco de Assis - São João del Rei MG
Igreja da Assunção de Nossa Senhora - Mariana MG
Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis - São João del Rei MG
Igreja da Ordem Terceira do Carmo - Ouro Preto MG
Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões - Ouro Preto MG
Igreja de Nossa Senhora do Carmo - Ouro Preto MG
Igreja de Nossa Senhora do Pilar - Ouro Preto MG
Igreja de São Francisco de Assis - Ouro Preto MG
Igreja do Carmo - Sabará MG
Igreja do Rosário - Santa Rita Durão MG
Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso - Caeté MG
Matriz de Santo Antônio - Tiradentes MG
Matriz de São João Batista - Barão de Cocais MG
Santuário do Bom Jesus de Matosinhos - Congonhas do Campo MG
Exposições Póstumas
1961 - São Paulo SP - Barroco no Brasil, no MAB/Faap
1978 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no MAM/RJ
1979 - Belo Horizonte MG - 6º Salão Global de Inverno, na Fundação Clóvis Salgado
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1988 - São Paulo SP - A Mão Afro-Brasileira, no MAM/SP
1997 - Brasília DF - Herança Barroca, no Palácio Itamaraty
1997 - São Paulo SP - Herança Barroca, no MAB/Faap
1998 - São Paulo SP - 24ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1998 - São Paulo SP - O Universo Mágico do Barroco, na Galeria de Arte do Sesi
1999 - Paris (França) - Brésil Baroque: entre ciel et terre, no Musée des Beaux-Arts de la Ville de Paris
2000 - Rio de Janeiro RJ - Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho: o que vemos e o que sabemos, no MNBA
2000 - Rio de Janeiro RJ - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento. Arte Barroca, no MNBA
2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento, na Fundação Bienal
2000 - São Paulo SP - Coleção Renato Whitaker, no Restaurante Antiquários
2001 - Itu SP - Aleijadinho: o que vemos e o que sabemos
2001 - Nova York (Estados Unidos) - Brazil: body and soul, no Solomon R. Guggenheim Museum
2001 - São Paulo SP - Museu de Arte Brasileira: 40 anos, no MAB/Faap
2002 - Rio de Janeiro RJ - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2002 - Rio de Janeiro RJ - Barroco no Museu Nacional de Belas Artes, no MNBA
2002 - Salvador BA - O Aleijadinho, no Museu de Arte Sacra
2002 - São Paulo SP - Aleijadinho e Mestre Piranga: imagens da Coleção Renato Whitaker, na Pinacoteca do Estado
2002 - São Paulo SP - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2003 - Brasília DF - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2003 - São Paulo SP - Tomie Ohtake na Trama Espiritual da Arte Brasileira, no Instituto Tomie Ohtake
2004 - Rio de Janeiro RJ - Tomie Ohtake na Trama Espiritual da Arte Brasileira, no MNBA

