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Severiano Mário Porto

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BIOGRAFIA

Severiano Mário Porto (Uberlândia MG 1930)

Arquiteto.

Muda-se com a família para o Rio de Janeiro, aos cinco anos de idade, quando seu pai funda o Colégio Brasil América. Forma-se na Faculdade Nacional de Arquitetura - FNA, da Universidade do Brasil, em 1954. Como estudante faz estágio na Construtora Britto e como arquiteto responsável pelo desenvolvimento de obras permanece na empresa por cerca de onze anos. Viaja a turismo para Manaus em 1963. Dois anos depois é convidado pelo governador do Estado do Amazonas, Arthur Cezar Ferreira Reis (1908 - 1993) - pai de um colega do Colégio Brasil América -, a realizar a reforma do palácio do governo, 1965, e o projeto da Assembléia Legislativa do Estado, 1965. No período em que permanece em Manaus para o desenvolvimento desses projetos, que não se concretizam, Severiano Porto recebe outras encomendas e então muda-se para a cidade, em 1966. Mantém o escritório do Rio de Janeiro com a coordenação de seu sócio, o arquiteto Mário Emílio Ribeiro (1930), colega de turma da FNA e co-autor em projetos importantes, como o Estádio Vivaldo Lima, 1965, o Campus da Universidade do Amazonas, 1970/1980, e a Pousada na Ilha de Silves, 1979/1983, todos construídos no Amazonas.

Em Manaus, elabora um caderno de encargos, com os engenheiros Sérgio S. Machado e Milber Guedes, para assegurar que as construtoras cumpram os prazos e as especificações técnicas conforme o projeto e os dispositivos legais estabelecidos. A iniciativa inédita no Estado é assimilada pelo governo. Muitos dos projetos desenvolvidos na região são premiados pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil - IAB, como o Restaurante Chapéu de Palha, 1967 (demolido), a Residência do Arquiteto, 1971, e a Pousada da Ilha de Silves. O conjunto de sua obra é premiado na Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires, em 1985, e ele alcança renome internacional, que é confirmado em 1987, quando é homenageado como o homem do ano pela revista francesa L'Architecture d'Aujourd'hui.1 Um ano antes a parceria de Severiano e Ribeiro é reconhecida pelo prêmio Personalidade do Ano, que os arquitetos recebem do departamento carioca do IAB. Em Manaus, Severiano também exerce a função de professor de arquitetura e urbanismo na Faculdade de Tecnologia da Universidade do Amazonas, de 1972 a 1998. Depois de 36 anos vivendo em Manaus, o arquiteto retorna ao Rio de Janeiro, e transfere o escritório para Niterói, onde passa a morar. Em 2003 recebe o título professor honoris causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro - URFJ.

Comentário crítico

Pertencente ao grupo de "arquitetos peregrinos, nômades e migrantes",2 que a partir dos anos 1950 deixam os grandes centros do país, sobretudo o Rio de Janeiro, em busca de novas oportunidades de trabalho, Severiano Porto se destaca no cenário arquitetônico nacional pela obra construída no Amazonas desde os anos 1960, sendo cultuado desde 1980 como um arquiteto regionalista que sabe aproveitar de forma criativa os materiais e os costumes do lugar. Mais conhecida pela valorização e o uso da madeira amazônica bruta, a sua obra, entretanto, não se restringe a esse material. A atenção dada às condições específicas da região não impede que ele utilize outros elementos e técnicas construtivos, como o alumínio, o cimento amianto, o concreto e o aço. Isso porque, em seus projetos, se orienta mais pelo clima, programa, materiais, técnicas e recursos financeiros disponíveis do que por anseios românticos ou nostálgicos.

Atento aos fatores geográficos da região e à maneira como o povo se adapta àquele meio, Porto adota em seus projetos materiais que acumulam pouca energia solar, dispositivos técnicos para o melhor desempenho térmico da construção. São coberturas com amplos beirais, circulações externas, varandas, venezianas e elementos vazados de todos os tipos que minimizam o excesso de luminosidade e protegem o edifício do calor e das chuvas freqüentes, principais problemas a serem enfrentados por qualquer construção na região. É possível afirmar que esses elementos estão presentes na maioria de seus projetos, à maneira como eles se desenvolvem do ponto de vista tectônico, variando conforme as especificidades de cada encomenda.

Nas escolas pré-fabricadas de madeira, 1965, e nas centrais telefônicas da Telecomunicações do Amazonas S.A. - Teleamazon, 1983, programas que exigem baixo custo, rápida execução e implantação em qualquer tipo de terreno, Porto adota materiais industrializados e pré-fabricados como estruturas de aço ou madeira aparelhada, coberturas de telhas de alumínio ou cimento amianto, paredes de madeira, painel wall e tijolos para as áreas molhadas, elementos cerâmicos vazados, venezianas de madeira ou caixilhos de alumínio. Os edifícios modulados, de volumetria retilínea, cobertura de duas águas e amplos beirais, pelas exigências atendidas, soluções técnicas e estéticas propostas, se assemelham aos edifícios desenvolvidos pelo arquiteto Oswaldo Bratke (1907 - 1997) para os núcleos urbanos Vila Amazonas, 1955/1960, e Vila Serra do Navio, 1955/1960, no Amapá.

Em edifícios públicos, como a sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus - Suframa, 1971, o ambulatório médico do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado do Amazonas - Ipasea, 1979, ou a ampliação da Central Telefônica de Manaus, 1979, em que o sentido de permanência e solidez se impunha, o arquiteto adota o concreto armado para a estrutura e cobertura e materiais industrializados, como alumínio nos caixilhos e divisórias e elementos vazados de concreto, para vedação. Nesses casos, ainda que o arquiteto desenvolva soluções que auxiliam na adaptação do edifício ao clima - como a apresentada na cobertura da Suframa ou nos elementos vazados e varandas do Ipasea -, essa adaptação não implica uma estética vernacular. Os edifícios se definem pelo caráter robusto das estruturas de concreto armado, adotadas por muitos edifícios e centros administrativos no período do milagre econômico brasileiro.3

As pesquisas com os materiais locais percorrem todo o período em que o arquiteto está presente em Manaus. O primeiro edifício de destaque dessa outra vertente de sua obra é o Restaurante Chapéu de Palha, 1967 (demolido). De estrutura de troncos de aquariquara, madeira típica da região, cobertura de palha de palmeira, piso e paredes de tijolos, o edifício se adapta perfeitamente ao local e ao uso a que é destinado, remetendo às construções populares e indígenas da área. A planta circular e os materiais empregados são retomados na Pousada na Ilha de Silves, 1978/1983, um edifício de dois pavimentos, com um pátio excêntrico que dá à cobertura de duas águas um desenho assimétrico. Mas é no Centro de Proteção Ambiental de Balbina, 1983/1988, que sua pesquisa ganha ainda mais força e expressão: a ampla cobertura de cavacos de madeira de forma orgânica que recobre os blocos independentes e suas passarelas de interligação são um ícone de sua obra. A maneira inventiva e orgânica com que Porto emprega as peças de madeira bruta nesses projetos é muito distinta daquela utilizada no mesmo período por Zanine Caldas (1918 - 2001).

A distribuição e integração do programa por meio da cobertura contínua presente em Balbina são as mesmas empregadas no campus da Universidade do Amazonas, 1970/1980, mas sem a ortogonalidade rígida de sua implantação e de seus edifícios, e a presença dos materiais industrializados que o caracterizam. Fora do Amazonas, o arquiteto desenvolve ainda dois edifícios dignos de destaque: a Escola de Música e Clube do Trabalhador do Sesi, 1978/1980, em Fortaleza, e a Assembléia Legislativa do Estado de Rondônia, em que utiliza na cobertura abóbadas em cerâmica armada calculadas pelo engenheiro uruguaio Eladio Dieste (1917 - 2000), cuja obra também é bastante valorizada a partir dos anos 1980.

A diversidade revelada pelo conjunto de sua obra e a capacidade de enfrentar diversos programas e sistemas construtivos com a mesma desenvoltura comprovam não só a versatilidade desse arquiteto, a importância de sua experiência pregressa no canteiro de obras como também o fato de que "normas estéticas, doutrinas, conceitos ou filiação a escolas e tendências, nunca foram a sua preocupação".4

Nota
1 L´Architecture d'Aujourd'hui, n. 251, Paris, juin 1987, p. 10.
2 O historiador e crítico da arquitetura Hugo Segawa cunhou esta expressão no texto Arquitetos peregrinos, nômades e migrantes. In: SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: Anos 1980. São Paulo: Projeto, 1988. p. 9-13.  
3 Sobre essa arquitetura ver o capítulo Episódios de um Brasil grande e moderno 1950 - 1980. In: SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil. São Paulo: Edusp, 1999. p. 159-188.  
4 SABBAG, Haifa Yazigi. Severiano Porto e a arquitetura regional. Vitruvius, São Paulo, set. 2003. Seção A. C. Disponível em: [http://www.vitruvius.com.br/ac/ac012/ac012_1.asp]. Acesso em: 26 dez. 2006.

Fonte: Itaú Cultural

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