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Laurita Salles

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BIOGRAFIA

Laurita Salles (São Paulo SP 1952)

Gravadora, escultora e professora.

Em 1972 e 1973, Laurita Ricardo de Salles frequentou cursos na Escola Brasil. De 1977 a 1982, fez graduação em artes plásticas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP, período em que tem aulas com Evandro Carlos Jardim (1935). Em 1988, como bolsista da Fundação Vitae e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, estuda gravura no Atelier 17, de Stanley Willian Hayter (1901 - 1988), em Paris, e história da gravura no Gabinete de Estampas da Biblioteca Nacional da França. Com base nesses estudos, passa a considerar a gravação em placas de metal como um processo independente dos métodos de impressão sobre papel. Leciona desenho e gravura na Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade Mackenzie, de 1991 a 1994. Começa a expor placas metálicas gravadas em 1996. Na mesma época, enquanto cursa mestrado na ECA/USP, visita indústrias que trabalham com usinagem química e percebe correspondências entre esse processo e a técnica de água-forte sobre gravura em metal. Desde então, realiza obras tridimensionais utilizando métodos industriais de gravação em latão. Em 2003, conclui doutorado em poéticas visuais pela ECA/USP, no qual desenvolve esculturas de polímeros plásticos com formas projetadas em programas de computador.

Comentário Crítico

Laurita Salles, como nota a historiadora da arte Annateresa Fabris, realiza, em sua produção, uma pesquisa direcionada para a compreensão das relações entre força, resistência do material e instrumento, sendo o ato de gravar a busca do ponto de encontro entre ação e matéria. Tal premissa remete à produção expressionista, na qual a gravura, um campo de experimentação privilegiado, revela os vestígios dos gestos do artista. Na série Matéria Fendida (1994), exibe o que a crítica Maria Alice Milliet denomina "uma paisagem devastada". Nas superfícies que apresentam cortes e irregularidades, insinua-se uma espacialidade e emanações de cor e luz que acentuam a tensão presente nas composições. Como aponta ainda Fabris, essas gravuras apresentam superfícies atravessadas por ritmos verticais e horizontais e regiões de adensamento que definem um jogo estável/instável entre superfície e profundidade.

Na opinião do historiador da arte Tadeu Chiarelli, Laurita Salles, ao longo de sua carreira, concentra-se cada vez mais na matriz em metal, que deixa de ser um meio para alcançar a imagem sobre o papel para tornar-se o foco principal de sua poética, como ocorre na série Niello (1994). Passando a criar gravuras-objetos, explora tanto a natureza da gravura quanto a da escultura, e tem como base o desbastamento da matéria. Posteriormente inicia trabalhos no campo tridimensional, como ocorre em Formas Rolantes (1994-1995) - cilindros de derivação industrial -, em cuja superfície são inseridas marcas ou fendas. Os trabalhos tridimensionais realizados a partir da metade da década de 1990 requerem um aparato industrial para sua concretização.

Como nota ainda Chiarelli, a produção de Laurita Salles associa-se a duas questões importantes da arte brasileira atual: o debate sobre o suporte e a constituição de poéticas sobre as margens das modalidades artísticas convencionais, enveredando por soluções plásticas inusitadas, tanto no âmbito da gravura como no da escultura contemporânea.

Críticas

"No gravador, existe uma vontade de potência, sua expressão não é uma metalinguagem mas ação direta sobre a concretude do mundo. O ato criador é deliberado e violento porque deve vencer a resistência do material. Neste fazer, a rudeza do gesto não permite arrependimentos: determina uma fatalidade. A gravura, compreende, primordialmente um ataque à matéria por corte, atrito ou corrosão, disto deriva uma plasticidade sofrida feita sulcos e depressões. O que aparece impresso no papel é o registro de uma cicatriz, um decalque topográfico. Laurita em sua gravura não oculta o embate de forças, não disfarça o processo com um tema figurado, antes deixa expostos os acidentes da superfície como uma paisagem devastada. A paisagem revelada pela atividade criadora do artista difere, radicalmente daquela intangível contemplada por um espectador ocioso. Ao contrário do voyeur, Laurita enfrenta a materialidade do cobre com decisão e adverte: 'o olhar da gráfica não é manso; crava, penetra, cava, fura... '. Seu pensamento plástico nasce do confronto do olho armado com a matéria bruta. Desperta a superfície lisa do cobre para a dinâmica das tensões geradora de fendas, crateras e relevos, fazendo surgir uma topografia semelhante à das formações geológicas. Não sutiliza a matéria, provoca sua força adormecida. No papel, pressionado sobre a chapa metálica previamente irrigada por viscosa tinta, torna positivo o espaço interior da massa, ilumina as entranhas, faz viver as profundezas. Uma retidão, o francês melhor diria uma 'droiture', guia seu procedimento e seu propósito. Laurita põe a nu a verdade do processo criador da gravura livrando-a do 'preciosismo técnico' e do 'intimismo' a que tem sido confinada por certa crítica".
Maria Alice Milliet - São Paulo, agosto de 1994
SALLES, Laurita. Matéria fendida. São Paulo: Adriana Penteado Escritório de Arte, 1994. p. [2].

"Ir da gravura para o objeto implica uma outra operação na qual a artista está investindo cada vez mais: a saída da bidimensionalidade da folha de papel para a conquista do espaço exterior à obra. Se no caso dos Niellos tal relação se dá, sobretudo através da luz que banha a superfície da chapa, conferindo-lhe uma densidade matérica maior do que aquela proporcionada pela prova em papel, as linhas de metal presentes na exposição de 1994 e os pontaletes apontam para um outro vetor de pesquisa. (...) A conquista do espaço exterior não significa para Laurita Salles a negação de sua atividade como gravadora. Trata-se, antes, da expansão e da radicalização de um raciocínio intrinsecamente gráfico, para o qual a linha é, em sua essência, um elemento conformador de espaços, e o corte se configura cada vez mais como o gesto primordial do gravador. Ou, melhor, do artista contemporâneo que rompe com as categorias e as hierarquias convencionais e transforma a obra no resultado de um gesto produtivo. Um gesto, ora carregado de referências materiais, como no caso da corrosão das superfícies concebidas pela artista como 'carne resistente', ora mais conceitual, como no caso da linha, que pode ser pensada à guisa de um percurso sutil, embora não destituído de energia. Um gesto, em todo caso, carregado de tensão, que torna viva a superfícies da matéria, que lhe confere uma realidade peculiar feita de contraposições complementares, graças às quais a resistência e maleabilidade acabam por confluir numa expressão instável e agregadora ao mesmo tempo".
Annateresa Fabris
SALLES, Laurita. Laurita Salles. São Paulo: Edusp, 1997. pp. 13-15.

"O trabalho de Laurita Salles com a gravura em metal pode ser entendido como uma volta ao passado da gravura, para entender aquele meio como linguagem e técnica, engendradas através da história. Tal atitude, a princípio muito relacionada à de Evandro Carlos Jardim (seu ex-professor na ECA - USP), levou a artista a abandonar a prática da obrigatoriedade da edição de vários exemplares de uma mesma matriz, contradizendo aqueles que definem a gravura apenas por sua capacidade reprodutível. Para Laurita, o que definiria a gravura parecia estar em outro lugar. Num aprofundamento ainda maior, a artista encontrou o ponto definidor da gravura no próprio resultado da ação de incidir o buril (instrumento para gravar a chapa de metal) sobre a matéria. Dessa descoberta resultaram gravuras devedoras de uma tradição expressionista-abstrata na aparência, porém com uma inquietação matérica que já denunciava uma outra transformação. Foi aquela inquietação que levou a artista finalmente a compreender que se o resultado do atrito entre o instrumento e a matéria pode ser definido como o elemento mínimo da gravura, pode igualmente definir o elemento mínimo formador da linguagem da pintura (a tinta sobre a tela) e da escultura (o cinzel sobre a pedra). Laurita parece ter percebido que, ao encontrar o grau zero da gravura, na verdade estava encontrando o grau zero dessas três linguagens artísticas. Seu trabalho agora em exposição é o resultado dessa descoberta: obras que, carregadas da história da gravura e da arte, caminham nas bordas (ou nas fendas) entre a pintura, a escultura e a própria gravura, ampliando assim o debate sobre arte no país. Impossível não concluir afirmando que tão próximo Laurita Salles chegou da gravura que encontrou a arte em seu interior".
Tadeu Chiarelli
CHIARELLI, Tadeu. Arte internacional brasileira. São Paulo: Lemos, 1999. p. 218.

Acervos

Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo/Brasil - São Paulo SP
Coleção Gilberto Chateaubriand - MAM RJ - Rio de Janeiro RJ
Coleção Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo - MAC/USP - São Paulo SP
Coleção Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ - Rio de Janeiro RJ
Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP  - São Paulo SP
Gabinete de Estampas da Biblioteca Nacional de Paris (França)
Gabinete de Estampas da Fundação Cassiano Ricardo - São José dos Campos SP
Museu da Gravura - Curitiba PR

Exposições Individuais

1984 - São Paulo SP - Laurita Salles: desenhos, na Galeria Sesc Paulista
1985 - São Paulo SP - Laurita Salles: pinturas, no CCSP
1987 - Curitiba PR - Laurita Salles: gravuras, no Museu da Gravura
1987 - São Paulo SP - Laurita Salles , no Ateliê Arnaldo Battaglini, Julio Minervino e Laurita Salles
1989 - Uberlândia MG - Laurita Salles: gravuras, na Casa de Idéias
1991 - São Paulo SP - Tempo de Devaneio, no MAC/USP
1994 - Curitiba PR - Matéria Fendida, no Museu da Gravura
1994 - São Paulo SP - Matéria Fendida, na Adriana Penteado Arte Contemporânea
2003 - São Paulo SP - Individual, no Centro Universitário Maria Antonia

Exposições Coletivas

1969 - São Paulo SP -  3º Jovem Arte Contemporânea, no MAC/USP
1970 - Santo André SP - 3º Salão de Arte Contemporânea de Santo André, no Paço Municipal
1970 - São Paulo SP - Pré-Bienal de São Paulo, na Fundação Bienal  
1971 - Santo André SP - 4º Salão de Arte Contemporânea de Santo André, no Paço Municipal
1983 - Kanagawa (Japão) - 9th International Independent Exhibition of Prints
1984 - Curitiba PR - 6ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba - prêmio aquisição
1984 - Santo André SP - 12º Salão de Arte Contemporânea de Santo André, no Paço Municipal
1984 - São Paulo SP - 2º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no MIS/SP - prêmio aquisição
1985 - São Paulo SP - Flora e Fauna: formas de representação, na Pinacoteca do Estado
1986 - São Paulo SP - Da Música da Linha, na Pinacoteca do Estado
1986 - São Paulo SP - Oficinas de Gravura: um panorama paulistano, no CCSP
1987 - Florianópolis SC - Aomar, na Casa da Alfândega
1987 - Liubliana (Iugoslávia, atual Eslovênia) - 17ª Bienal Internacional de Gravura, na Moderna Galerija Ljubljana
1987 - Santo André SP - Paralelos Calcográficos - Homenagem a Hans Grudzinski, no Paço Municipal
1988 - Bremen (Alemanha) - Pequenos Formatos, na El Pátio Galerie
1988 - Cracóvia (Polônia) - 12ª Bienal Internacional
1988 - Ferrol (Espanha) - 6º Prêmio Internacional de Gravura Máximo Ramos
1988 - Paris (França) - Múltiplos, no Espace Latino-Américain
1988 - Seul (Coréia do Sul) - 6ª Bienal Internacional de Gravura
1989 - Curitiba PR - Premiados das Mostras da Gravura Cidade de Curitiba, no Museu da Gravura
1989 - Paris (França) - Papel Branco - Homenagem a Krazno, no Espace Latino-Américain
1989 - São Paulo SP - 20ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal 
1989 - Taipé (Taiwan) - 4ª International Biennial Print Exhibition, no Taipei Fine Arts Museum
1990 - Amadora (Portugal) - 2ª Bienal de Gravura
1990 - Biella (Itália) - Premio Internazionale Biella per I'Incisione
1990 - Cidade do México (México) - Gravuras Contemporâneas Brasileiras, no Museo Nacional de la Estampa
1990 - Kyoto (Japão) - 11º Impact Art Festival, no Kyoto City Museum
1990 - São Paulo SP - 21º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1990 - São Paulo SP - Arte Gravura Hoje, no Paço das Artes
1990 - São Paulo SP - Gravuras, no CCSP
1991 - Curitiba PR - Destaques da Gravura Contemporânea, na Fundação Cultural de Curitiba
1991 - Santiago (Chile) - Gravuras de Artistas Brasileiros Contemporâneos, no Museo Nacional de Bellas Artes
1991 - São Paulo SP - Destaques da Gravura Contemporânea, no MAC/USP
1992 - Curitiba PR - 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba/Mostra América, no Museu da Gravura - premiada
1992 - São Paulo SP - Arte Brasileira na Coleção: anos 70/90, no MAC/USP
1993 - Curitiba PR - Atelier Experimental de Gravura Francesc Domingo, no Museu da Gravura
1993 - Ribeirão Preto SP - Gravuras, no Museu de Arte de Ribeirão Preto Pedro Manuel-Gismondi
1993 - São Paulo SP - Branco e Preto, na Adriana Penteado Arte Contemporânea
1993 - São Paulo SP - Clube da Gravura, no MAM/SP
1993 - São Paulo SP - Gravuras, no Espaço Namour
1994 - Belo Horizonte MG - Linha no Espaço, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1994 - Brasília DF - Gravura Paulista, na Galeria Rubem Valentim
1994 - Curitiba PR - 11 Artistas Gravadores Brasileiros e Britânicos, no Museu da Gravura
1994 - Londres (Reino Unido) - 5 Contemporary Brazilian Printmakers, na Hardware Gallery
1994 - Londres (Reino Unido) - 5 Contemporary Brazilian Printmakers, no London Print Workshop
1994 - Porto Alegre RS - 11 Artistas Gravadores Brasileiros e Britânicos, no Margs
1994 - Porto Alegre RS - Linha no Espaço, na Casa de Cultura Mario Quintana
1994 - Porto Alegre RS - Linha no Espaço, na Casa de Cultura Mário Quintana
1994 - São José dos Campos SP - 1ª Bienal de Gravura de São José dos Campos, no Senac - premiada
1994 - São Paulo SP - 11 Artistas Gravadores Brasileiros e Britânicos, no MAB/Faap
1994 - São Paulo SP - Anos 90: a gravura contínua, no CCSP
1994 - São Paulo SP - Gravuras, no MAC/USP
1994 - São Paulo SP - Poética da Resistência: aspectos da gravura brasileira, na Galeria de Arte do Sesi
1995 - Belo Horizonte MG - Imagem Derivada: um olhar acerca do desdobramento da gravura hoje, no Museu de Arte da Pampulha (Belo Horizonte, MG)
1995 - Curitiba PR - O Objeto Gravado, no Museu da Gravura
1995 - São Paulo SP - Coletiva 34, na Adriana Penteado Arte Contemporânea
1995 - São Paulo SP - Doações Recentes, no MAM/SP
1995 - São Paulo SP - Garner Tullis Workshop, no MAM/SP
1995 - São Paulo SP - Gravura Paulista, na Galeria de Arte São Paulo
1996 - Porto Alegre RS - 3º Encontro Latino-Americano de Artes Plásticas. América América, no Ieavi
1996 - São Paulo SP - O Excesso, no Paço das Artes
1997 - Curitiba PR - A Arte Contemporânea da Gravura, no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba
1997 - Menphis (Estados Unidos) - Escultura Contemporânea Brasileira 
1997 - Portland (Estados Unidos) - Contemporary Brazilian Prints, no Portland Art Museum
1998 - Campinas SP - A Gravura como Escultura, no Itaú Cultural Campinas
1998 - Jacareí SP - Mulheres Gravadoras: uma homenagem à Edith Behring, na Vila Cultura - Pátio dos Trilhos
1998 - Jacareí SP - Múltiplas Abordagens em Torno da Gravura, na Casa da Gravura
1998 - Jacareí SP - Múltiplas Abordagens em Torno da Gravura, na EMEF Lamartine Delamare
1998 - Jacareí SP - Múltiplas Abordagens em Torno da Gravura, na EMEF Silvio Silveira Mello Filho
1998 - Jacareí SP - Múltiplas Abordagens em Torno da Gravura, na EMEF Barão de Jacareí
1998 - Penápolis SP - A Gravura como Escultura, na Galeria Itaú Cultural
1998 - Rio de Janeiro RJ - Pensar Gráfico: a gravura da linguagem, no Paço Imperial
1998 - São Paulo SP - A Gravura como Escultura, no MAM/SP
1999 - Rio de Janeiro RJ - Mostra Rio Gravura. São Paulo: gravura hoje, no Palácio Gustavo Capanema (Rio de Janeiro, RJ)
1999 - São Paulo SP - Território Expandido, no Sesc Pompéia 
2000 - Belo Horizonte MG e Brasília DF - Investigações. São ou Não São Gravuras?, no Itaú Cultural
2000 - Brasília DF - Investigações. São ou Não São Gravuras?, na Itaugaleria
2002 - Londrina PR - São ou Não São Gravuras?, no Museu de Arte de Londrina
2003 - São Paulo SP - MAC USP 40 Anos: interfaces contemporâneas, no MAC/USP
2004 - São Paulo SP - Lambe-Lambe, no Atelier Piratininga 
2004 - São Paulo SP - Sobregravura, na Galeria de Arte Gravura Brasileira

Fonte: Itaú Cultural

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