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José Christiano de Freitas

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BIOGRAFIA

José Christiano de Freitas Henriques Júnior (Ilha das Flores, Arquipélago de Açores, Portugal 1832 - Assunção, Paraguai 1902)

Fotógrafo.

Imigra para o Brasil em 1855 e fixa-se em Maceió, onde começa a atuar como fotógrafo. Provavelmente no início da década de 1860, transfere-se para o Rio de Janeiro, e se associa a Fernando Antônio de Miranda no estúdio Photographia do Commercio. Entre 1866 e 1875, é sócio de Bernardo José Pacheco na firma Christiano Jr. & Pacheco, na mesma cidade. Na época, retrata pessoas de origem africana, escravas ou libertas, enfocando características faciais ou simulando suas atividades profissionais em estúdio. Além dessas imagens, seu ateliê comercializa retratos em vidro (ambrótipo), reproduções de gravuras, paisagens para estereoscópio,1 fotografias ampliadas sobre lenços, porcelana e marfim, cartes-de-visite de monarcas, militares, literatos e outros. Em 1866, conquista medalha de bronze na Exposição Nacional do Rio de Janeiro. No fim da década de 1860, muda-se para Buenos Aires, onde seus negócios prosperam e chega a manter, simultaneamente, dois estúdios. Conquista medalha de ouro na Exposição Nacional de Córdoba, em 1871, e na Exposição Científica de Buenos Aires, em 1876. Em 1876 e 1877, publica duas edições dos álbuns Vistas y Costumbres de la Republica Argentina. No fim dos anos 1870, vende seu estabelecimento e seu acervo de negativos para o fotógrafo inglês Alejandro S. Witcomb (1835 - 1905). Christiano Júnior é considerado um dos mais importantes fotógrafos que trabalham na Argentina no século XIX.

Comentário Crítico

No período em que vive no Rio de Janeiro, a produção fotográfica mais significativa e conhecida de José Christiano Júnior é a coleção de cartes-de-visite de africanos e seus descendentes, escravos ou libertos, realizadas nos anos 1860. Nessa época, a população da cidade é de aproximadamente 266 mil habitantes, sendo que 110 mil são escravos, o que representa a maior concentração urbana de trabalhadores cativos desde o fim do império romano.

Christiano Júnior traz os escravos para dentro do estúdio, por vezes retratando-os diante de fundos pintados com paisagens de bosques europeus. As imagens enfocam características faciais em close ou mostram as pessoas de corpo inteiro em situações que simulam suas atividades profissionais. Os registros mostram, sobretudo, carregadores e os chamados "negros de ganho", homens e mulheres que trabalham como vendedores nas ruas do Rio de Janeiro e cujo lucro, no fim do dia, é entregue aos proprietários. No comércio ambulante são vendidos produtos como água, cestarias, flores, frutas, legumes, aves, livros, tecidos, sapatos, facas, moringas, cristais, porcelanas, doces, roscas e bolos transportados à cabeça em latas ou caixas.

Um anúncio publicado pelo estúdio de Christiano Júnior, em 1866, no Almanaque Laemmert, explicita quem são os consumidores de suas fotos. Entre outros serviços, o fotógrafo oferece "Variada colecção de costumes e typos de pretos, cousa muito própria para quem se retira para Europa". A peculiaridade dessas imagens está no fato de que a maior parte dos escravos não é mostrada em sua condição de indivíduo, mas como "tipos de negro" ou exemplos genéricos das atividades por eles exercidas. Os cartões trazem legendas como "Tipos africanos", "Escravo cesteiro", "Escravo vendedor de cadeiras", etc. As pessoas são quase sempre retratadas em pé e no centro do quadro, de frente ou de perfil, de maneira a mostrar com clareza suas características físicas, sua indumentária e seus instrumentos de trabalho.

No século XIX, a ciência positivista considera tudo o que podia ser visualizado numa fotografia como algo necessariamente verdadeiro. Os retratos concentrados nos rostos dos negros servem também aos estudos de fisiognomonia comuns na época e, por isso, sobre fundos brancos que denotam imparcialidade, esses retratos têm conotação científica.

Os cartes-de-visite dos senhores são uma espécie de apresentação social do retratado. Como os escravos não têm condições de possuir tais objetos, as fotos de homens e mulheres negras são como cartões-postais - mostrando personagens exóticos aos olhos eurocêntricos. Nas fotografias assinadas por Christiano Júnior, os negros parecem coagidos. As poses são rígidas e poucos modelos encaram a objetiva, e, quando o fazem, alguns têm a feição assustada. As imagens denotam a idéia de escravos disciplinados e submissos ao senhor. Mostram o cativo pacificado, não remetendo às fugas, tampouco às tensões criadas pelo forte movimento abolicionista da época.

Suas imagens são importantes fontes de estudo para pesquisas nas áreas de história, antropologia e sociologia, que têm as relações sociais no Brasil oitocentista como foco. Mesmo feitas em estúdio, ao lado das gravuras de Debret (1768 - 1848), auxiliam na reconstituição da vida cotidiana nas ruas do Rio de Janeiro no século XIX. Além disso, as fotos chamam a atenção para um dos paradoxos da sociedade da época: o Brasil tem um monarca incentivador das artes e das ciências, é visto como uma promessa de riqueza e desenvolvimento, no entanto, é a última nação ocidental a abolir a escravidão negra.

A partir dos anos 1870, após transferir-se para a Argentina, Christiano Júnior documenta os habitantes, os costumes e a paisagem de Buenos Aires e de províncias do interior do país. Por esses registros, é considerado um dos mais importantes fotógrafos que atuam na Argentina no século XIX.

É importante destacar que a autoria de fotografias feitas nessa época é sempre controversa, pois os estúdios empregam assistentes e, muitas vezes, as imagens são comercializadas por diferentes empresas. Mesmo que os cartes-de-visite levem a inscrição do estabelecimento de Christiano Júnior, não é possível aferir se são feitas sempre pelo mesmo autor.

Nota
1 Aparelho binocular no qual é colocado um cartão com duas fotografias da mesma cena tiradas em ângulos ligeiramente diferentes para criar a ilusão de tridimensionalidade.

Críticas

"Além de fotógrafo, seguindo a tradição nesta profissão, era pintor, desenhista e escritor. Havia possuído um ateliê de fotografia no Rio de Janeiro há alguns anos, em sociedade com um certo Pacheco, e agora, talvez em busca da fortuna, havia decidido aplicar seus conhecimentos aqui. 
Naturalmente, seus objetivos foram plenamente alcançados e, em pouco tempo, ele conseguiu impor sua personalidade, e sua atualização em relação às mais diferentes técnicas oriundas das mais diversas partes do mundo era muito comentada entre seus clientes e seus colegas de profissão. 
Em seus dez anos bastante produtivos de atividade como fotógrafo, produziu um testemunho notável sobre a Buenos Aires de seu tempo, excursionando ainda pelo interior do país para registrar aquilo que ele próprio considerava como prioritário: 'a República Argentina monumental e artística' ".
Juan Gómez
Gómez, Juan. La fotografía en la Argentina: su historia y evolución en el siglo XIX: 1840-1899. p. 78-79.

"O fotógrafo Christiano Junior ao retratar os negros urbanos do Rio de Janeiro, escravos ou alforriados, removeu-os de seus próprios contextos de vida e trabalho. Criou situações e moldou gestos, colocando esses homens e mulheres na condição de objetos diante de um cenário artificial, apenas com alguns elementos a lembrar os ofícios e atividades de cada um, transformando-os assim em modelos fotográficos. 
Tais fotografias eram anunciadas pelo fotógrafo como grande coleção de costumes e tipos de pretos, coisa própria para quem se retira para a Europa. Fotografias com o mesmo espírito de exploração da imagem do negro (escravo ou liberto) e do índio, seja com fins pseudocientíficos (em função das teorias racistas que pregavam a superioridade biológica do homem branco, em moda da Europa), seja enquanto ´ilustrações´ dos seres exóticos que habitavam esta parte de Novo Mundo (´souvenirs´ ideais para os turistas) foram também produzidas por outros fotógrafos. Essas imagens, construídas em seu conteúdo e padronizadas em sua apresentação (através da ´carte-de-visite´, em voga na época), eram levadas para a Europa como ´lembrança do Brasil´, reforçando, assim, estereótipos e alimentando mitos".
Boris Kossoy
Kossoy, Boris. Estética, memória e ideologia fotográficas: decifrando a realidade interior das imagens do passado. Acervo: Revista do Arquivo Nacional. v. 6, n. 1/2, p. 17.

Acervos

Acervo Museu Histórico Nacional - Rio de Janeiro RJ
Coleção Gilberto Ferrez - Rio de Janeiro RJ
Acervo Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural - Rio de Janeiro RJ
Acervo Museu Imperial - Petrópolis RJ
Acervo Instituto Moreira Salles - São Paulo SP

Exposições Coletivas

1866 - Rio de Janeiro RJ - 2ª Exposição Nacional, na Casa da Moeda - menção honrosa
1871 - Córdoba (Argentina) - Exposição Científica de Córdoba, com série intitulada Vistas y Costumbres de la Republica Argentina - medalha de ouro
1876 - Buenos Aires (Argentina) - Exposição Científica de Buenos Aires, com série intitulada Vistas y Costumbres de la Republica Argentina - medalha de ouro

Exposições Póstumas

1981 - Zurique (Suíça) - Fotografie Lateinamerika von 1860 bis Heute, na Kunsthaus Zürich
1982 - Berlim (Alemanha) - Fotografie Lateinamerika von 1860 bis Heute
1982 - Madri (Espanha) - Fotografie Lateinamerika von 1860 bis Heute
1982 - Rotterdã (Holanda) - Fotografie Lateinamerika von 1860 bis Heute
1985 - Rio de Janeiro RJ - Dom Pedro II e a Fotografia no Brasil, na Casa do Bispo
1986 - Paris (França) - La Photographie Bresilienne au Dix-Neuvieme Siecle, na Mairie du XIVe Arrondissement
1987 - Rio de Janeiro RJ - Fotografias. Collecção D. Thereza Christina Maria, na Biblioteca Nacional
1988 - São Paulo SP - O Negro na Iconografia Brasileira do Século XIX: A Visão Européia, na Faculdade de Geografia e História da USP
1994 - Rio de Janeiro RJ - A Imagem Restaurada, no MNBA
1997 - Campinas SP - O Brasil na Máquina do Tempo: coleção referencial da história da fotografia, no Itaú Cultural
1997 - Penápolis SP - O Brasil na Máquina do Tempo: coleção referencial da história da fotografia, na Galeria Itaú Cultural
1997 - São Paulo SP - O Brasil na Máquina do Tempo: coleção referencial da história da fotografia, no Itaú Cultural
1998 - Belo Horizonte MG - O Brasil na Máquina do Tempo: coleção referencial da história da fotografia, no Itaú Cultural
1998 - Brasília DF - Brasileiro que nem Eu, que nem Quem?, no Ministério das Relações Exteriores
1998 - Brasília DF - O Brasil na Máquina do Tempo: coleção referencial da história da fotografia, na Galeria Itaú Cultural
1999 - Rio de Janeiro RJ - O Brasil Redescoberto, no Paço Imperial
1999 - São Paulo SP - Brasileiro que nem Eu, que nem Quem?, no MAB. Salão Cultural
2000 - Brasília DF - O Século XIX na Fotografia Brasileira: coleção Pedro Corrêa do Lago, no Ministério das Relações Exteriores. Palácio do Itamaraty

Fonte: Itaú Cultural

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