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Giuseppe Baccaro

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BIOGRAFIA

Giuseppe Baccaro (Roccamandolfi, Itália 1930)

Marchand, galerista, colecionador, pintor e desenhista.

Chega ao Brasil em 1956. Sua primeira atividade é editar um jornal para a colônia italiana de São Paulo, o Progresso Ítalo-Brasileiro. Nele, há uma sessão de arte, assunto pelo qual Baccaro logo se interessa. Ele procura e conhece Flávio de Carvalho (1899-1973), Tarsila do Amaral (1886-1973) e Anita Malfatti (1889-1964), os quais, segundo ele, encontra esquecidos em suas casas. Inaugura sua primeira galeria em 1962, na rua Augusta, com uma exposição do pintor naif Heitor dos Prazeres (1898-1966). O nome, Selearte, é tirado de uma revista de arte italiana. No mesmo ano, realiza uma exposição de Mira Schendel (1919-1988) e em 1964, uma mostra de Rossi Osir (1890-1959).

Nessa época, os leilões dominam o mercado de arte paulistano. Inicialmente, os de maior destaque são os leilões beneficentes do Hospital Albert Einstein, que têm início em 1961. Em 1965, Baccaro abre a Casa de Leilões e, assim, passa a ter uma participação importante no mercado. O galerista Antonio Maluf diz: "O mercado de arte era dominado pelos leilões beneficentes do Hospital Albert Einstein e pelos leilões comerciais do Giuseppe Baccaro. Ele foi o responsável pela verticalização do mercado".1 

Baccaro adquire diversas obras, de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Victor Brecheret (1894-1955), entre outros, muitas vezes em grandes quantidades. Ele é responsável pela volta à circulação da produção de vários artistas. Nesse sentido, seu nome está ligado à obra de Ismael Nery (1900-1934). Em 1965, cinco telas de Ismael foram incluídas na sala especial Surrealismo e Arte Fantástica da 8ª Bienal de São Paulo. A partir de 1966, quando há uma individual póstuma do artista na Petite Galerie do Rio de Janeiro, Baccaro e o marchand Francisco Terranova passam a difundir sua obra. Em 1967, Baccaro publica um artigo sobre o artista no único número da revista surrealista A Phala. Ainda nessa década, Baccaro, em conjunto com o marchand Benjamin Steiner, adquire um lote de 400 desenhos de Nery. Boa parte deles é vendida a colecionadores particulares paulistas. Em 1974, Baccaro é curador da mostra Ismael Nery - 1900 - 1934, que acontece no Museu de Arte de São Paulo Assis de Chateaubriand (Masp), com 104 desenhos do artista. Segundo a historiadora e crítica Aracy Amaral, a apresentação que Baccaro escreve é sensível e mística, condizente com Ismael.2

Em 1966, Baccaro torna-se sócio de Pietro Maria Bardi (1900-1999) na galeria Mirante das Artes, localizada na esquina da rua Estados Unidos com a rua Augusta. No mesmo ano, funda a galeria Art Art, que, em seguida, passa às mãos do marchand Ralph Camargo. Este último é iniciado na carreira de galerista pelo italiano: "Baccaro é o marchand que eu mais respeitei, pela sua originalidade, força e conhecimento. Ele foi o inventor do mercado de arte no Brasil".3 Mas Baccaro não se restringe à atividade de galerista: em 1968, expõe seus desenhos na Petite Galerie, Rio de Janeiro. No final da mesma década, a Galeria Art, São Paulo, expõe guaches de Chico da Silva (1910-1985). No modesto catálogo, Baccaro escreve um longo texto sobre o trabalho e sobre o artista.

Por volta de 1970, muda-se para Olinda, Pernambuco. Diz: "Eu estava cansado de vender obras caras para colecionadores ricos. Não é possível que 90% dos acervos no Brasil estejam em mãos de colecionadores particulares enquanto os museus estão à míngua"4  Ali, funda a Casa das Crianças de Olinda, instituição para crianças carentes. Em 1999, calcula-se que 200 crianças por ano são beneficiadas.5  Em 2001, cerca de 21 mil crianças haviam recebido apoio da instituição.6  Para financiar a construção da sede da instituição, Baccaro se desfaz de uma parte de seu acervo. O terreno é comprado com a renda obtida pela venda de 120 quadros de Ismael Nery. A edificação é uma réplica de uma vila italiana. As casas abrigam oficina, sala de aula e posto de saúde. Há também um anfiteatro em estilo romano para 1.200 pessoas e uma hospedaria para artistas populares. Além disso, Baccaro mantém uma biblioteca de 30 mil volumes, além de pinturas, gravuras, mapas, cartas e autógrafos.

Em Olinda, ele continua a atividade artística. Em 1986, expõe pinturas no Masp. E, no final dos anos 1980, integra o Atelier Coletivo, com Gilvan Samico (1928), Luciano Pinheiro (1946), Eduardo Corrêa de Araújo (1947), Guita Charifker (1936), José Cláudio da Silva (1932) e José de Barros (1943). Na primeira mostra do ateliê, a venda das obras é destinada à Casa das Crianças de Olinda e ao Movimento dos Meninos e Meninas de Rua de Pernambuco. Em uma exposição de 1990, Baccaro apresenta a pintura a óleo Morro, do mesmo ano. Um morro, contra um céu laranja, possui divisões mais ou menos geométricas feitas por linhas grossas de tinta escura e empastada e preenchimentos também empastados em cores avermelhadas ou verdes. Está entre a figuração e a abstração.

Ele renega sua atuação passada como marchand. Diz que está "(...) arrependido de ter abastecido livings de milionários".7  É bastante criticado por alguns: "A primeira parte do decênio (1962 - 1972) foi dominada por Giuseppe Baccaro, o rei dos leilões, um modesto barbeiro dos arredores de Nápoles, que veio para São Paulo, trabalhou alguns meses no balcão de vendas da Bienal e descobriu um público heterogêneo, formado principalmente de estrangeiros, que gostava e comprava obras de arte moderna (...) O reinado de Baccaro foi até os últimos anos sessenta. Ele dominou o período como senhor absoluto do mercado, impondo bons e maus pintores, fixando coleções, comprando imensos lotes de quadros a preço de banana, colocando nas coleções os quadros mais caros. Baccaro só caiu diante de José Paulo Domingues da Silva (...) Tudo somado, foram dois reinados de muito abuso, mas serviram para colocar o mercado em marcha".8

O período em que atua é marcado por alguns marchands fortes, como Benjamin Steiner, Franco Terranova e José Paulo Domingues. Segundo a galerista Raquel Arnaud: "Naquela época [1972] os leilões tinham um peso enorme, e pessoas importantes como o Benjamin Steiner e o Giuseppe Baccaro trabalhavam com isso".9 É então que surge José Paulo Domingues, cujo nome, na verdade, é Paolo Businco. Ele organiza leilões e funda a galeria Collectio. Pouco tempo depois descobre-se seu envolvimento em vários esquemas ilegais, inclusive nos leilões. Todo o período acaba manchado por esse embuste. Entretanto, apenas as acusações contra Businco são comprovadas.

Roberto Rugiero, marchand de arte popular, lembra-se do episódio e diz que Businco ocupa o espaço deixado por Baccaro, em torno de 1972. Segundo Rugiero, Baccaro é "(...) uma das pessoas mais cultas e mais bem informadas sobre arte(...)"10  Ainda de acordo com Rugiero, ele é um dos últimos a tratar a arte popular em pé de igualdade com a arte moderna. Acrescente-se a isso o fato de recolocar em circulação muitos artistas modernos. Sua importância deve-se sobretudo à atuação como marchand e galerista, mas sua coleção é bastante interessante.

Atualmente, a coleção fica nos três sobrados conjugados da rua São Bento, em Olinda, onde Baccaro mora. O interior é todo em madeira e apresenta diversos níveis, escadas que rangem e muita poeira. É ali que se encontram várias obras, dentre as quais algumas raridades. São mapas antigos, documentos históricos, primeiras edições de escritores famosos, entre outros. Há arte sacra de vários países, do século XVI ao XVIII. Há manuscritos originais dos escritores Cecília Meirelles, Olavo Bilac e Coelho Neto. Primeiras edições dos autores franceses Marcel Proust e Victor Hugo, e dos brasileiros Euclides da Cunha e Mário de Andrade, bem como uma edição dos Sermões de Padre Vieira, de 1679. Possui também litografias de Alfred Sisley (1839-1899), gravuras de Dürer (1471-1528) e Di Cavalcanti (1897-1976) e uma água forte do Abaporu, de Tarsila do Amaral. Há ainda, por exemplo, um bilhete da atriz Sarah Bernardt a um amante e escritos dos pintores Claude Monet (1840-1926) e Eugène Delacroix (1798-1863). Um verdadeiro tesouro que o proprietário diz querer vender, para reformar e manter sua instituição social. Uma coleção de 150 fotos pertence ao acervo do Instituto Moreira Salles. Em 2005, o antigo Instituto Cultural Bandepe, atual Instituto Cultural Banco Real, em Recife, expõe parte de seu acervo em Coleção Giuseppe Baccaro: a arte de ver o mundo.

Notas
1 ARCO das rosas: o marchand como curador. Apresentação José Roberto Aguilar; texto Celso Fioravante. São Paulo: Casa das Rosas, 2001, p. 13.

2 AMARAL, Aracy A. Textos do Trópico de Capricórnio: artigos e ensaios (1980 - 2005) - vol. 1: Modernismo, arte moderna e o compromisso com o lugar. São Paulo: Ed. 34, 2006, p. 82.

3 ARCO das rosas: o marchand como curador. Apresentação José Roberto Aguilar; texto Celso Fioravante. São Paulo: Casa das Rosas, 2001, p. 14.

4 ARCO das rosas: o marchand como curador. Apresentação José Roberto Aguilar; texto Celso Fioravante. São Paulo: Casa das Rosas, 2001, p. 14.

5 ADEODATO, Sérgio. Tesouro à venda: o ex-marchand Giuseppe Baccaro leiloa valiosos acervo para salvar obras de apoio a crianças carentes. Época, São Paulo, 15 nov. 1999. Ano II, nº 78, p. 76.

6 ARCO das rosas: o marchand como curador. Apresentação José Roberto Aguilar; texto Celso Fioravante. São Paulo: Casa das Rosas, 2001, p. 14

7 ADEODATO, Sérgio. Tesouro à venda: o ex-marchand Giuseppe Baccaro leiloa valiosos acervo para salvar obras de apoio a crianças carentes. Época, São Paulo, 15 nov. 1999. Ano II, nº 78, p. 76.

8 MARANCA, Paolo. O coveiro do nosso comércio de quadros, Folha da Tarde, 16 jul. 1974. In: ARCO das rosas: o marchand como curador. Apresentação José Roberto Aguilar; texto Celso Fioravante. São Paulo: Casa das Rosas, 2001, p. 25. [Exposição na Casa das Rosas, São Paulo, de março a maio 2001]

9 ARNAUD, Raquel. Raquel Arnaud e o olhar contemporâneo. Apresentação e entrevista Rodrigo Naves. São Paulo: Cosac Naify, 2005, p. 20.

10 MARCHAND da resistência: Roberto Rugiero. Revista Raiz, São Paulo, ed. n.º 2. Disponível em:  http://revistaraiz.uol.com.br/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=81&Itemid=95. Acesso em 7 nov. 2009.

Fonte: Itaú Cultural

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