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Francisco Manoel das Chagas

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BIOGRAFIA

Francisco Manoel das Chagas (17-- - 17-?)

Escultor.

Conhecido como "o Cabra", escassas são as informações sobre sua vida e produção, e há dúvidas sobre o fato de ter sido um escravo liberto. Sabe-se que é autodidata e desenvolve sua atividade artística na segunda metade do século XVIII, em Salvador. Documentado, há apenas um contrato estabelecido entre 1757 e 1758, com a Ordem Terceira do Carmo, para a produção de três imagens de Cristo: Cristo Crucificado, Cristo Sentado na Pedra e Cristo com a Cruz nas Costas. Em 1788 ocorre um devastador incêndio na Igreja do Carmo e não existe nada que assegure a preservação dessas obras, embora haja forte indício de que as duas últimas tenham sido conservadas. Várias outras obras lhe são atribuídas: uma imagem do Senhor Jesus dos Passos (que foi transferida em 1764 para Santa Catarina); o Cristo Atado à Coluna (exposto na 24ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1998); e uma imagem de Nossa Senhora das Dores, entre outras. A falta de informações seguras a respeito de Chagas abre espaço para o florescimento de lendas. Uma delas envolve a referida imagem do Senhor Jesus dos Passos. Tendo como destino o Rio Grande do Sul, a embarcação que leva a obra tem de ancorar em Santa Catarina; e as diversas tentativas de prosseguir viagem são frustradas e o capitão da nau se prostra aos "desígnios divinos". Logo após, em janeiro de 1765, cria-se em Santa Catarina a Irmandade do Senhor Jesus dos Passos. A participação de suas obras em exposições como a 24ª Bienal Internacional de São Paulo e O Universo Mágico do Barroco Brasileiro, ambas em São Paulo, 1998, indica o interesse recente pela produção do artista. A obra Cristo Atado à Coluna aparece na capa do CD Se Deus Vier, que Venha Armado, lançado em 1999 pelo grupo paulistano de rap Pavilhão 9.  

Comentário Crítico

Em que pese a incerteza quanto à real dimensão de sua obra, há algumas tendências gerais que podem ser identificadas na arte de Francisco das Chagas, o Cabra. Numa contextualização mais ampla, a forte presença da temática religiosa, própria da arte barroca, é marcante em suas imagens. Se não há inovação no conteúdo, há alguma ousadia na forma. A segunda metade do século XVIII - conforme interpretações mais recentes - é um momento preparatório para a independência política do Brasil, de modo que a afirmação da nacionalidade, pela valorização de características e iniciativas próprias, está presente em diversas manifestações culturais da época. Nasce em meio à elite cultural uma sutil rebeldia ante a rigidez dos padrões da metrópole. A flexibilidade e a leveza das formas, assim como a força da expressão passional, apresentam-se em diferentes tons como marca dessa geração de artistas plásticos. São características visíveis nas imagens atribuídas a Chagas.

Além disso, é inegável a posição destacada que ele ocupa no cenário do barroco baiano. A obra Cristo Atado à Coluna é a principal atração do Museu da Ordem Terceira do Carmo, que, junto com o Convento do Carmo, a Catedral de Salvador (antigo colégio dos jesuítas) e o Convento de São Francisco, forma o conjunto do que há de mais importante da arte religiosa em Salvador. Várias são as referências à obra de Chagas como ponto inicial da riqueza escultural da Bahia. Aníbal Mattos, estudioso da arte colonial brasileira, chega a estabelecer uma analogia entre o que ele representa para o barroco baiano e o papel de Aleijadinho (1730 - 1814) no barroco mineiro. Por sua vez, Mário de Andrade (1893 - 1945) o identifica como precursor da "imposição do mulato" na arte brasileira do século XVIII, fenômeno que abarca as artes visuais e a música, envolvendo Mestre Valentim e o próprio Aleijadinho, entre outros. O talento de Chagas parece, assim, corroborado pelos incisivos, embora raros, comentários críticos.

Sua obra mais famosa, Cristo Atado à Coluna, tem forte expressividade. Em identificação propriamente barroca, o corpo de Cristo está num movimento com precisão anatômica. O movimento é leve e decidido; distante, por um lado, de um brusco desvencilhamento da coluna e, por outro, de resignação tranqüila às amarras. O olhar dirigido aos céus, em busca do Pai, parece completar espiritualmente o impulso corporal ao alto, dando assim mais significado ao movimento. A prisão à coluna, um signo do mundo terreno, obstrui a elevação de Cristo. Sua extraordinária expressão facial indica uma espécie de sofrimento compreensivo. Mesmo desfigurado pela dor, seu rosto deixa ver a clemência e a tranqüilidade daquele que pode compreender seus agressores. Uma expressão ambígua e de difícil penetração. A capacidade de representar tão complexos sentimentos faz justiça à fama de Chagas como o grande iniciador da escultura barroca na Bahia.

Críticas

"(...) Mas a prova mais importante de que havia um surto coletivo de racialidade brasileira, está na imposição do mulato. A Colônia, por força das suas circunstâncias econômicas unicamente, e sem a mais mínima intervenção política de Portugal, fazia dois séculos que vinha se enriquecendo de algumas realizações artísticas. (...)principiam nascendo na Colônia, artistas novos que deformam sem sistematização possível a lição ultramarina. E entre esses artistas brilha o mulato muito.
Caldas Barbosa e Mestre Valentim são mulatos. Leandro Joaquim, da mesma época e dos melhores pintores do Rio, é mestiço também. O padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), mulatíssimo e o mais notável dos nossos músicos coloniais. (...) E o Aleijadinho é mais outro mulato. Bastam estes exemplos para se compreender este lado, não dominante, mas intensamente visível, de como a raça brasileira se impunha no momento.
(...)
E me esqueci de lembrar que na Bahia, primeiro em data nesse congo de mulatos famanazes, Chagas, o Cabra, preludiara com vigor o coro dos santeiros nacionais. (...)".
Mário de Andrade 
ANDRADE, MÁRIO DE. Aspectos das artes plásticas no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. 96 p. (Obras completas de Mário de Andrade, 12), p. 13. Esse ensaio foi editado pela primeira vez no livro O Aleijadinho e Álvares de Azevedo. Rio de Janeiro: R. A. Editora, 1935.

"Menção especial merece a escultura de Francisco das Chagas, razão porque abrimos um parágrafo especial para os seus trabalhos por merecerem uma apreciação à parte. Possuimos apenas um contrato, feito com ele pela Ordem 3ª do Carmo da Capital baiana, entretanto a análise deste contrato e destas imagens criam um ponto de partida seguro para atribuir-lhe outras esculturas, não porque ele possuia um estilo próprio e sim um método de trabalhar diferente dos outros escultores que então trabalharam na Bahia. (...)".
Carlos Ott
OTT, Carlos. História das artes plásticas na Bahia: 1550 a 1900. Salvador: Alfa, 1993. v. 2. p. 45.

Exposições Póstumas

1998 - São Paulo SP - 24ª Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal
1998 - São Paulo SP - O Universo Mágico do Barroco Brasileiro, na Galeria de Arte do Sesi

Fonte: Itaú Cultural

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