Flávio de Carvalho


“[...] o que o homem tem de mais profundo e interessante, ou pertence aos
domínios puros do pensamento [,] ou provém desse mundo mórbido escondido.
A arte na sua forma limite (tomando o sentido matemático de limite) é a que
mais necessita dessa Morbidez da alma e dessa Pureza do pensamento; intuitiva
ou especulativa, ela tende sempre a essas direções, e pode-se concluir com
segurança que a arte que não atinge os domínios da Morbidez e da Pureza mal
merece o nome de arte.”
Flávio de Carvalho


Arquiteto, calculista, engenheiro, urbanista, pintor, desenhista, escultor, teatrólogo, cenógrafo, músico, radialista, jornalista, etnólogo e antropólogo amador, iconoclasta ou também o “revolucionário romântico”, como o chamou, com muito humor, o arquiteto Le Corbusier.

Que outros títulos e definições caberiam neste perfeito agitador cultural, o “enfant terrible” que tumultuou o cenário artístico de São Paulo e do Brasil nas décadas de 30 a 50 do século passado? Portador de uma vasta e conturbada erudição que abrangia sua formação em ciências exatas de engenheiro/arquiteto e invadia áreas de cultura e ciências sociais: antropologia, psicologia, filosofia e artes, Flávio de Carvalho era acima de tudo um visionário utópico. E sobretudo um homem que adorava a polêmica e os holofotes, para muitos o primeiro performer brasileiro, com sua “experiência Nº 2” em 1931. Da coerência da lógica cartesiana e a rigidez dos cálculos matemáticos ao aparente caos das emoções das suas incursões no mundo das artes, Flávio, foi - quase - um protótipo do seu moderno homem nu, despido de preconceitos burgueses, livre dos condicionantes da igreja, sem tabus, sem Deus e sem matrimonio, mas, ao contrario do seu modelo, com propriedades.

“Muito bem relacionado com a imprensa, e sabendo transformar cada ação num acontecimento, sua atuação gerou uma [...] quantidade de textos e material iconográfico” imensa.

Ao lado de seus prolixos textos, às vezes, ingênuos e simplistas, mas impregnado de certa erudição, o atormentado artista produziu uma densa e instigante obra. Como arquiteto, deixou quase que apenas projetos, alguns audaciosos para a época, outros apenas bizarros. E nesta área de sua profissão formal, foi acima de tudo incompreendido e renegado. Participou de dezenas de concursos e conseguiu executar apenas duas obras. Ambas financiadas por ele mesmo: a casa em sua fazenda em Valinhos no interior de São Paulo e um grupo de 17 casas em uma vila (America) na Alameda Lorena esquina com a Rua Ministro Rocha Azevedo, no bairro dos Jardins na capital paulista que Flávio alugava e onde ele também viveu por algum tempo.

Como artista plástico, alternando entre o expressionismo e o surrealismo, além de seus eventos dadaístas, deixou uma obra inquietante e perturbadora, de inigualável beleza. Evidentemente não anormal, mas, ás vezes mórbida e com uma pureza, quase matemática. Preponderantemente figurativista e com uma predominância de retratos, onde Flávio procurava desvendar a “psicologia” do retratado, além de muitas figuras de mulheres e nus, e eventualmente, oníricas paisagens noturnas.

Destinado pela família a uma regrada vida de engenheiro e fazendeiro iniciou sua vida profissional como calculista no escritório de Ramos de Azevedo. Durou pouco esta pacata atuação, pois logo se aborreceu com a rotina, rebelou-se com as deficiências dos arquitetos o que o obrigava a discussões e a enfadonha missão de viabilizar construções cuja estética ele deplorava.

Flávio Rezende de Carvalho, filho de abastada família de fazendeiros, legítimos “barões de café”, orgulhava-se de sua estirpe e fazia questão de evidenciar uma genealogia “aristocrática” e possivelmente inverossímil que incluía santos, reis e rainhas.3 Marca de suas contradições, presentes em quase tudo o que fazia ou escrevia.

Sem dúvida a infância de Flávio, longe da família, a partir dos 12 anos, vivendo na França e na Inglaterra em internatos que ele mais tarde chamou de “ilha-reformatórios” transparece em todas as suas experiências, suas bravatas, sua iconoclastia, sua vida escandalosa e irreverente, de contestador e rupturista. “O isolamento leva a uma superestimação de si mesmo e cria uma fobia de contato com outros mundos,considerados ‘selvagens’. Bem comportado dentro de sua ilha, o inglês, lá fora, dá asas ao seu recalque secular: é violento, conquistador, dominador; o mundo ‘selvagem’ é o seu ponto de apoio, o fetiche próprio à sublimação de todo sonho de liberdade acalentado e reprimido na ilha-reformatório”.

Mas esta longa estadia na Europa tornou possível um encontro decisivo com as vanguardas num ambiente sócio-cultural em plena ebulição, prenunciando grandes transformações políticas e econômicas. Processos de urbanização e industrialização violentos, avanços tecnológicos inimagináveis, Darwin e as teorias de Freud, desestabilizando conceitos e padrões vigentes. Os trabalhos de ciências emergentes, de sociólogos, antropólogos e etnólogos, como Durkheim, James Frazer e Bronislaw Malinowski. Os movimentos de vanguarda, o dadaísmo, o futurismo, o surrealismo, o expressionismo alemão e a Bauhaus produziram uma forte e decisiva influência que iria envolver toda a vida e obra de Flávio.

“Flávio Rezende de Carvalho é um dos maiores pintores brasileiros vivos; sua escola, o expressionismo, mas não é o expressionismo de mensagem da pioneira Kate Kollwitz, nem o expressionismo formal e cromático dos alemães e franceses que a sucederam; o de Flávio é o expressionismo inspirado no anarquismo dos futuristas, pois foi o futurismo de Marinetti, diretamente importado da Itália que deu vida ao movimento de arte moderna em São Paulo, em 1922.”

AS EXPERIÊNCIAS PERFORMÁTICAS

“Infelizmente, [...] as várias gerações da crítica modernista vêm valorizando
apenas os registros materiais de sua passagem pelo circuito brasileiro - a pintura,
o desenho, certos feitos arquitetônicos -, esquecendo ou procurando esquecer
que muitas vezes o que mais interessa na produção de Carvalho não é o
produto final de seu processo criativo (em alguns momentos magistral, como a
série de desenhos Minha Mãe Morrendo), mas cada atitude tomada pelo artista
para se relacionar com os mistérios do mundo.”
Tadeu Chiarelli

É difícil separar alguns momentos ou atitude ou eventos de Flávio que não possam ser classificados como perfeitos modelos de performance: Suas “experiências”, suas exposições tumultuadas com suas autodenúncias, seu teatro provocativo e fechado pela policia, suas conferências, suas aparições, sua personificação de “delegado antropofágico”, seus projetos, seus monumentos. Enfim, tudo era planejado com uma visão provocativa, montada para expor suas idéias, sim, mas também para obter informações para o entendimento do seu maior desafio: o de conhecer os meandros psicológicos do homem.

Experiência Nº2 - Realizada Sobre uma Procissão de Corpus Christi

O primeiro livro de Flávio sobre “A experiência Nº 2”7 relata o que tem sido considerada como a primeira performance ou happening (?) de que se tem notícia, embora ainda não tivesse estes nomes, mas já possuía as premissas básicas das que são consideradas pioneiras na década de 60.

Em 1931 no dia da procissão de Corpus Christi9, a mais importante da igreja católica, pois representa o próprio Senhor saindo às ruas para abençoar as pessoas, é exigido dos fieis um comportamento que exprima um imenso respeito além da observação de rígidas regras de conduta. Assim, na passagem da procissão os fieis deveriam tirar o chapéu em sinal de veneração, além disso, ela não poderia jamais ser interrompida ou obstruída. E Isto era rigorosamente observado na São Paulo nas primeiras décadas do século passado, uma cidade cuja população era predominantemente católica e até carola. Pois neste ambiente Flávio resolveu fazer sua experiência Nº 2, isto é, afrontar a procissão e seus seguidores, invadindo-a na direção contraria, com chapéu na cabeça e provavelmente resmungando frases ou palavras anticlericais. A reação foi imediata e num crescendo ao ponto de em determinado momento exigir uma retirada estratégica de Flávio que foi obrigado a refugiar-se para não ser agredido pelos fieis que o ameaçavam, vorazes e indignados, gritando: ‘Lincha! Lincha! Mata!’.

“Abri meus braços num gesto patriarcal e patético e expliquei com doçura: ‘Eu sou um contra mil’ [...] O meu apelo de raciocínio tinha fracassado por completo. A massa tinha reagido pela emotividade ancestral.”

No livro em que relata a sua “Experiência Nº 2” Flávio faz um exame minucioso das reações das pessoas individualmente e as transformações do comportamento coletivo, da “massa”. Utiliza para esta análise os conceitos de Freud em “Totem e tabu” e do antropólogo inglês James Frazer no seu livro “O ramo dourado”. Obras recorrentes em vários momentos de Flávio, desde a sua peça “O deus morto” até a sua “Cidade do homem nu”, entre outros.

Experiência Nº3 – O NEW LOOK

A experiência Nº 3 foi precedida por longas reflexões envolvendo as preocupações de Flávio como arquiteto e urbanista, com o habitat do homem: sua cidade, sua casa e finalizando: suas vestes.

A década de 50 já conhecia surtos de rebeldia em relação aos rígidos padrões ditados pela moda, principalmente do homem, no século 20. O movimento beatnik, os jovens rebeldes sem causa, de James Dean, Elvis Presley e os existencialistas franceses. Mas, no cotidiano formal a rigidez da moda persistia. Flávio rebelou-se contra a ditadura dos costumes que obrigava o homem nos trópicos vestir-se como se fosse enfrentar neve ou baixas temperaturas.

Durante meses publicou no jornal “Diário de São Paulo”uma série de 39 artigos, fartamente ilustrados, tratando da história e evolução da moda sob o título “A moda novo homem” que ele pretendia publicar com o nome de “A dialética da moda”.

Flávio distinguia na história da humanidade uma sucessão de épocas de apogeu e épocas de crise e depressão. Para cada tipo de época corresponderiam determinados padrões específicos. Às épocas de apogeu corresponderiam manifestações curvilíneas com cores vivas e alegres, com curvas impregnadas de sensualidade, fecundantes. Para as épocas de luto e crise corresponderia um padrão de formas de retas paralelas, de cores sóbrias e monocromáticas, antifecundantes. Estes padrões são encontrados na história e envolviam a arquitetura, a escultura, a pintura e naturalmente,a moda.

Culminando com esta série de artigos, Flávio idealizou um novo traje, próprio para o homem dos trópicos, o habitante da “cidade do homem nu”, o homem despido de preconceitos e tabus. Mais leve, mais “ventilado” e, portanto, mais higiênico e saudável. E para mostrar sua viabilidade e suas qualidades idealizou um desfile, pelas ruas de São Paulo, com o novo traje que chamou de New Look.

Para esta experiência, Flávio elaborou, com a ajuda de Maria Ferrara, figurinista do Balé IV Centenário, um conjunto formado por uma saia plissada acima dos joelhos, blusão (top), meia arrastão (emprestada pela atriz Maria Della Costa) e sandália de couro cru, além de um chapéu esvoaçante.

Inicialmente tinham armações de arame para que o tecido não entrasse em contato com a pele. Este sistema não deu certo e foi retirado do modelo final. Para garantir a ventilação e evaporação do suor, foram feitos cortes especiais, principalmente debaixo dos braços. Além disso, usou também um tecido especial, recém lançado nos EUA e especialmente importado para a confecção do traje.

Nos longos meses de planejamento, Flávio deu inúmeras entrevistas quando exaustivamente explicava as razões do lançamento do traje. A idéia inicial seria a de formar uma grande passeata com inúmeros integrantes vestindo o novo traje. Muitos amigos e personalidades já tinham se comprometido: Assis Chateaubriand, Clovis Graciano, Eleazar de Carvalho, Túlio de Lemos, Joaquim Pinto Nazário, entre outros. O cortejo seria “aberto por dois vagabundos de rua, com suas roupas em trapos...”

Flávio além de apregoar os benefícios para o conforto, a higiene e a saúde dos homens que o novo traje traria, lembrava também que ele deveria ser multicolorido, libertando o homem do monocromatismo austero do terno e gravata e arrematava com um argumento irresistível: era muito mais barato e, portanto mais acessível.

“... a vetusta estandartização cromática do vestuário do homem contemporâneo, vem de uma imposição da nobreza à burguesia, durante o século XVII, absurda de se continuar ostentando nos dias atuais [...] A roupa colorida naqueles tempos era privilégio dos nobres franceses para se diferenciar dos burgueses.” E complementava com uma afirmação”... o uso de uma grande variedade de cores tornará os homens menos irascíveis e obtusos.”

Flávio jogava argumentos, às vezes fantasiosos, para comprovar suas teorias e também para atrair adeptos, além de suscitar assunto e interesse para os jornais e com isto sua experiência Nº 3 tornava-se popular e foi matéria quase obrigatória na imprensa durante meses.

Por carta, recebeu o apoio de seus amigos Ungaretti e Alberto Moravia que da Itália se prontificavam em ajudá-lo numa eventual demonstração em Roma!

J. Toledo, para dar uma idéia da ousadia de Flávio, relata que em agosto daquele mesmo ano, segundo reportagem do jornal “Última Hora”, um ourives húngaro, de meia-idade, foi preso, sob a alegação de atentado à moral pública, por estar andando no Viaduto do Chá,no centro da capital paulista, vestindo camisa de manga curta e short!

Finalmente no dia 18 de outubro de 1956, Flávio, sozinho, (todos os amigos que haviam prometido participar do evento, desistiram ou arrumaram viagens urgentes...), com uma grande platéia de jornalistas (inclusive correspondentes internacionais), amigos e curiosos, saiu pelas ruas do centro de São Paulo, com o seu traje Nº 1, saiote verde e blusão amarelo. Percorreu algumas ruas, entrou em um bar e tomou um café oferecido pelo crítico Luiz Ernesto Kawall, na época repórter. Entrou no cine Marrocos, que normalmente exigia, não só terno, mas, obrigatoriamente a gravata, sempre seguido por numerosos populares. Parou nos Diários Associados, na Rua 7 de abril, e no saguão do jornal, subindo em uma mesa discursou para todos. Em seguida vestiu seu traje Nº 2, saiote branco e blusa vermelha e voltou para sua casa, na Rua Barão de Itapetininga, de carro.

No dia seguinte, Flávio e seu New Look foram manchete em todos os jornais e uma semana depois, após inúmeras entrevistas, inclusive na TV e comemorações no Clubinho, Flávio embarcou para a Itália.

FLÁVIO ARTISTA PLÁSTICO

“Quando olho para o meu retrato feito pelo Segall eu me sinto bem. É o meu
eu convencional, o decente, o que se apresenta em publico. Quando defronto o
meu retrato feito pelo Flávio, sinto-me assustado, pois vejo nele o lado tenebroso
da minha pessoa, o lado que escondo dos outros.”
Mário de Andrade

Esta sensação que Mário de Andrade sentia é corroborada por Paolo Maranca:

“É um prazer estar diante de um retrato pintado por Flávio de Carvalho; da pintura de gesto, dos feixes de cores que se entrelaçam e vibram como músculos e nervos, para depois seguir seu trajeto pela tela, mesmo onde a descrição da figura termina, então vemos mãos e olhos derramando cores como fluídos sobrenaturais; mas neste clima irreal, surge a fisionomia inconfundível do retratado, não raro acerbamente criticado, massacrado pela perspicácia de Flávio, exposto ao ridículo; Flávio realiza verdadeira cirurgia psicológica do retratado, isola os elementos que sua sensibilidade artística considera primordiais à identificação e os realça de uma forma que às vezes choca com o próprio retratado. O retrato é, sem dúvida, o ponto alto da obra de Flávio.”

Flávio retratou seus amigos, suas mulheres, suas amigas, intelectuais, artistas, jornalistas sempre com a intenção de captar o fundamental, através de uma percepção psicológica.

“Quando pinto um retrato, me afasto totalmente do mundo em redor e só me preocupo com o que estou fazendo. O que me interessa no retrato é a expressão fundamental do modelo. [...] esse algo que a pessoa tem, mas que é percebido por poucos [...] escolho a cor predominante para iniciar o retrato e coloco-a com volúpia de formas sobre a tela. As outras cores se sucedem pelo grau de importância capaz de formar a expressão e pelo equilíbrio necessário ao conjunto. Uma por uma são colocadas. Nessa altura a sensação de equilíbrio é equivalente à expressão. [...] Um outro problema surge na pintura como conseqüência do conjunto de cores e oriundo da associação de cores: o importante problema das linhas-de-força.”

“O próprio Flávio de Carvalho, na inquietude dos gestos e das cores, imprime-se nesses retratos. Aliás, é curioso que um gênero tão recorrente na antiguidade, e em crise desde o surgimento da fotografia,tenha tido tamanha prioridade na obra de um renovador como Flávio de Carvalho, ainda que ele tenha emprestado ao tema uma vitalidade moderna. Isso talvez corrobore a idéia de que, ao contrário das questões populares e políticas do expressionismo alemão, aqui elas tenham se reduzido a uma questão de estilo. Ao invés das cenas do cotidiano, da vida de minorias e da penúria humana, retratava-se entre nós a burguesia intelectual.”

A produção de Flávio não foi grande em quantidade, segundo Rui Moreira Leite19, seriam aproximadamente 100 óleos, mil desenhos e duzentas aquarelas20. Em 1948, Flávio revelou que se interessou pela pintura aos 12 anos através de contato com revistas de arte, mas começou a pintar em 1918 quando ainda era estudante de engenharia na Inglaterra e ingressou no curso noturno da Edward VII School of Art.

Para Flávio de Carvalho o século XX “trouxe consigo o início das grandes descobertas psicológicas e mostrou uma visão tentadora de um produto do cérebro: o uso da máquina e das noções de eficiência. [...] O problema não é mais um problema de percepção visual das coisas, sistema máquina fotográfica, mas trata-se de uma percepção psicológica e uma percepção cerebral. Na percepção psicológica o artista procura desvendar o conteúdo dentro da forma, aquilo que está dentro, e ele [se] depara então com um mundo estranho e se extasia ante as feridas ancestrais desse mundo. Na percepção cerebral o artista torna-se um calculista frio, um geômetra e um matemático inconsciente, ele lida com forças e noções de equilíbrio em cores e formas, ele é um pensador da arte e não um emotivo”.

Expôs pela primeira vez no Salão Revolucionário em 1931, no Rio de Janeiro, com o óleo fauvista “Anteprojeto para Miss Brasil”. Participou de todos os Salões de Maio, de 1937 a 1939 e também dos Salões do Sindicato de 1939 e 1941. Na década de 40 participou de várias exposições na Inglaterra.

Em 1934 realizou sua primeira individual em São Paulo, no Prédio Alves Lima, na Rua Barão de Itapetininga.

A exposição foi fechada pela polícia, convocada por uma denúncia anônima... (é quase certo que fomentada ou executada pelo próprio Flávio). Na manhã seguinte, os monumentos da cidade amanheceram pintados com camisolas brancas, trabalho feito às escondidas durante a noite por Flávio e o amigo Quirino da Silva. Tudo isto criou muita polêmica e chamou a atenção do público e dos jornais. Em seguida a polícia, questionada, reconheceu a arbitrariedade da sua intervenção e a exposição foi reaberta transformando-se em um sucesso absoluto de público e dando motivo para inúmeros artigos nos jornais e manifestos de intelectuais. Flávio vendeu todos os quadros e com o lucro viajou para a Tchecoslováquia e União Soviética logo em seguida. Na volta, o até então fervoroso simpatizante da União Soviética, declarou aborrecido: “Na Rússia a única coisa que presta é o Hermitage”.

Só voltaria a expor individualmente no Brasil em 1948 no MASP, quando apresentou 8 desenhos da “Serie trágica” onde retratou sua mãe, D.Ofélia nos estertores da morte. Também desta vez a exposição foi motivo de discussão e Flávio foi chamado de “pintor maldito”. Muitos viram nos desenhos de Flávio uma ausência total sentimento e de dor diante da agonia da mãe. Mas, chamou a atenção, evidentemente, não só por este fato, mas principalmente pela beleza brutal dos desenhos, que muitos consideram sua obra mais importante, magistral, conforme Tadeu Chiarelli.

Participou da Primeira, Segunda e Terceira Bienal Internacional de São Paulo em 1951, 1953 e 1954, respectivamente. Em 1952 outra exposição, desta vez no Museu de Arte Moderna MAM-SP já com algumas obras apresentando uma geometrização do fundo das composições além de algumas abstratas.

Em 1957, o júri da Bienal numa atitude discriminatória e corporativista recusou seus trabalhos juntamente com o de inúmeros outros artistas, privilegiando apenas os abstratos, concretistas e particularmente os tachistas, então na moda. Este fato suscitou grandes discussões, que assumiram proporções de escândalo. Inúmeros artigos em jornais foram publicados deplorando a atitude do júri. Inúmeras demonstrações públicas de repudio aconteceram. O pintor naif José Antonio da Silva pintou uma serie de quadros cujo tema era o enforcamento dos membros do júri. Neste ambiente conturbado Flávio tornou-se o líder dos recusados, posição que assumiu com prazer. “Do outro lado” a liderança era atribuída ao crítico Mário Pedrosa que publicou artigo referendando a atitude do júri. O grande desfecho, pelo menos para Flávio, e que lhe serviu como um desagravo perfeito, aconteceu em seguida, quando o famoso crítico norte-americano Alfred Barr Jr., reverenciado por todos os que o haviam excluído, adquiriu obras de Flávio para o Museu de Arte Moderna de Nova York desprezando obras dos artistas acolhidos pelo júri naquela Bienal.

“Alfred Baar, [...] declarou, entre outras coisas: ‘Fiquei três semanas aqui, gastei centenas de dólares e não pude ter uma idéia da arte brasileira.”

Em 1960 realizou uma grande exposição na Galeria São Luis, em São Paulo, e o crítico Sergio Milliet lembrou em artigo para o jornal “O Estado de São Paulo” o fato de Flávio não estar sendo reverenciado como devia e merecia. “Pintor de mérito e desenhista admirável, não tem tido, ultimamente a crítica que merece.”

E arremata. “É um sentimental, um romântico envergonhado de seu romantismo e que o esconde sob a máscara da agressividade. A melhor técnica para um tal temperamento é a que efetivamente escolheu: a do expressionismo. [...] Sua obra é uma obra de amor, de paixão, de arrebatamento e de exibicionismo.”

Em 1963 a Sétima Bienal, com novo júri se redimiu da posição anterior e homenageou Flávio com uma Sala Especial.

Em 1970, Flávio fez algumas experiências com uma novidade trazida pelo cônsul norte americano Allan Fisher: tintas para luz negra. O resultado, dois retratos: de Sergio Buarque de Holanda e Marysia Portinari, além de alguns nús, que foram apresentados em uma exposição na Mini Galeria do USIS. Os quadros eram expostos em uma sala que alternava a iluminação normal com momentos de escuridão total quando os quadros eram iluminados apenas com luz negra o que fazia a tinta ganhar fluorescência. Esta alternância visava à comparação entre as duas. A experiência não prosperou, mas evidenciou mais uma vez a disposição do artista em conhecer todas as novidades que surgiam.

Sua última grande exposição, ainda vivo, foi em 1973 uma retrospectiva no MAB-FAAP, além de uma participação na XII Bienal de São Paulo daquele ano.

Flávio, durante sua vida participou de inúmeras outras exposições coletivas e individuais, além de ter participado de várias Bienais, inclusive como homenageado.

Faleceu em 4 de junho de 1973 em Valinhos, no Estado de São Paulo.

SALÃO DE MAIO (1937/1939)

“Sou contra o Salão de Maio. Sou contra o Salão de Maio porque teria vontade
de protegê-lo com a inteligência, com meus braços, com meu dinheiro. A
inteligência, gato comeu; meus braços estão pra lá de exaustos, dinheiro, sou
pobre. Sou favorável ao Salão de Maio. Sou favorável ao Salão de Maio porque
diverte desinteressadamente, é arte. Se é arte, procura a expressão. Se procura
a expressão, não tem medo de errar. Só não sou é indiferente ao salão de Maio”
(Mário de Andrade)

 

O Salão de Maio foi criado por Quirino da Silva e tinha como proposta acolher apenas “arte moderna” além de promover intercâmbio com artistas de outros lugares, com a intenção de mostrar as mais variadas correntes e experimentalismo que ocorriam em outros países. Deste modo, o Salão se contrapunha à Família Artística Paulista que aceitava artistas de todas as tendências, modernos e acadêmicos.

Flávio de Carvalho entusiasmou-se desde o inicio com a idéia e passou a ajudar na organização do Salão, enquanto Geraldo Ferraz fazia a divulgação na imprensa.

A primeira exposição, no Hotel Esplanada, contou com Tarsila da Amaral, Brecheret, Lívio Abramo, Guignard, Hugo Adami, Waldemar da Costa, Cícero Dias, Segall, Ernesto de Fiori, Vitorio Gobbis, Antonio Gomide, Tomoo Handa, Carlos Prado e Portinari, além de Flávio de Carvalho entre outros. Varias conferências foram realizadas concomitantemente, abordando história da arte, teatro de vanguarda e até “O aspecto mórbido e psicológico da arte moderna” por Flávio de Carvalho.

Flávio, nesta conferência, distinguia etapas, num ciclo revolucionário, no desenvolvimento da Arte Moderna. Período de Meditação e Dialética, Período de sangue e de exibição das feridas e do anarquismo, período de curativo do mundo e 4º. Período de Ourificação.

A segunda exposição contou com a participação de grande número de estrangeiros, entre os quais os abstracionistas ingleses Erik Smith, Roland Penrose e Ben Nicholson além dos mexicanos Leopoldo Mendez e Dias de Leon. Esta internacionalização foi em grande parte devida à atuação de Flávio e estas presenças exerceram profunda influência no desenvolvimento das artes plástica no Brasil, como enfatiza Paulo Mendes de Almeida:

“Abstracionistas e surrealistas em São Paulo, naquele tempo, constituíam, sem dúvida, acontecimento artístico de invulgar importância. Assinale-se, ainda, que nisto, isto é, no ‘importar’ uma representação, em conjunto, e de alto padrão, de artistas estrangeiros, o Segundo Salão de Maio, antecipava-se às futuras Bienais do Museu de Arte Moderna de nossa Capital, justificando-se sua inclusão, sob esse aspecto também, naquela série de movimentos coletivos de irrecusável e inestimável função pioneira e precursora, no panorama das artes plásticas no País.”

E mesmo tendo sido o pioneiro em mostrar e promover o abstracionismo no Brasil, Flávio nunca o adotou, (senão em raríssimas incursões) mantendo-se fiel ao figurativismo. Em 1953, em entrevista para Walter Zanini publicada na Tribuna da Imprensa, Flávio explicou:

“[...] A grande revolução contemporânea da pintura separou-a da realidade objetiva. A pintura moderna foge, portanto, do visualismo, substituído realidades psicológicas. Estas continuarão predominantes e, por isso, afastar-se-ão do abstracionismo, no qual não há essa penetração de espírito humano. A arte abstrata tende a se divorciar do mundo subjetivo e, em consequência, mergulhará num mundo cada vez mais objetivo, matemático.”

Sua última exposição, no segundo semestre de 1939, é realizada sem a presença de Quirino da Silva e Geraldo Ferraz e somente sob direção de Flávio de Carvalho escudado pelo advogado Abrahão Ribeiro em virtude das desavenças. Formou-se na ocasião uma “Comissão de aceitação de obras” composta por Segall, Brecheret, Antonio Gomide, Jacob Rutchi e Flávio de Carvalho. Também nesta mostra houve grande participação de artistas estrangeiros com destaque para Alberto Magnelli, Alexander Calder e do alemão Josef Albers que exerceu grande influência na obra de Volpi, como ele mesmo reconheceria mais tarde.

Após esta exposição o desentendimento entre Quirino da Silva e Geraldo Ferraz com Flávio de Carvalho determina a fim do Salão de Maio. (Flávio, sem consultar ninguém havia registrado, em cartório, o Salão em seu nome).

CLUBE DOS ARTISTAS MODERNOS (CAM) – TEATRO DE EXPERIÊNCIAS

“Flávio de Carvalho não foi um dos participantes da Semana. Apareceu no cenário
modernista como enfant terrible, à semelhança do irônico Oswald de Andrade.
Destacou-se mais pela vida extravagante que levava e pelas iniciativas
consideradas provocatórias e escandalísticas. A ele são creditadas ações importantes
para a renovação das artes. Engenheiro, arquiteto, pintor, desenhista de
extraordinária inventiva, que o consagra como o número 1 do seu tempo, sociólogo
e escritor. Flávio é lembrado como ativista atuante dos anos 30. Tentou,
fundando o Salão de Maio, desprovincializar o meio dos ‘amadores da arte’ presos
aos preguiçosos esquemas acadêmicos, porém sem nada obter de válido.”
Pietro Maria Bardi

O fenômeno do “associativismo” entre os artistas plásticos “modernos” recrudesce principalmente em São Paulo, na década de 30. Era a maneira que encontravam para enfrentarem as instituições e mecanismos oficiais dominados pelos acadêmicos.

O CAM – Clube dos Artistas Modernos foi criado por Flávio de Carvalho um dia depois da fundação do SPAM (Sociedade Pró-Arte Moderna – 1932/1934) com praticamente os mesmos objetivos. De acordo com Paulo Mendes de Almeida o CAM nasceu de uma dissidência do SPAM... antes que o SPAM existisse. Na ocasião foi distribuído um manifesto que informava os objetivos do Clube: “um grupo de artistas modernos resolveu fundar um pequeno clube para os seguintes fins: reunião, modelo coletivo, assinatura das melhores revistas sobre arte, manutenção de um pequeno bar, conferências e exposições, formação de uma pequena biblioteca sobre arte, defesa dos interesses da classe.”

Aliás, nesta reportagem do Diário da Noite33, provavelmente de responsabilidade de Geraldo Ferraz, as declarações contraditórias de seus idealizadores, surpreende (?):

“Di Cavalcanti opina que: ‘A organização que você está vendo aqui não tem absolutamente nenhum interesse em realizar uma obra cultural, educativa. [...] Não queremos incentivar a arte moderna, nem coisa nenhuma. Este clube é um clube, apenas, tão somente um clube. Podia ser um clube de choferes. Podia ser de carroceiros ou de tecelões.’”

Já Flávio lança um verdadeiro manifesto, polêmico e idealista: “Este clube não tem limites dentro destas paredes claras. Vivemos no mundo, e num mundo hoje estreitamente ligado pela radiotelefonia, pelo telefone, pela aviação, pela Graf Zeppelin. Embora o Brasil seja um dos países mais longínquos da terra eu penso que nos devíamos centralizar em São Paulo, neste clube, um intercâmbio de informações e realizações com todos os meios cultos universais, com os seus intelectuais e artistas.

A série de conferências que nós anunciamos incluirá nomes de estrangeiros que terão que descobrir a América e o Brasil, aqui. Convidaremos Picasso, convidaremos Chagall, convidaremos até o diabo. Conferências, debates, exposições, revistas, tudo!

Iremos a fundo em todos os problemas da arte moderna, infundindo aqui as novas noções. Lutaremos, e aí de quem se opuser ao nosso esforço.”

O jornal termina com uma “tentativa” de entrevista com Carlos Prado: “Entrevista para que? Isto é cabotinismo. Eu não tenho nada para falar. Estamos trabalhando numa coisa que me interessa. E isto basta. Não é preciso de publicidade.”

Ainda segundo Paulo Mendes de Almeida a criação do CAM foi decidida no salão de chá do Mappin Stores, na Praça Patriarca, quando estavam reunidos, ele, Flávio, Vitorio Gobbis e Arnaldo Barbosa. Muitos outros encontros aconteceram e Flávio insistia na sua criação, pois não acreditava que o SPAM seria efetivamente concretizado e, além disto, desconfiava que o mesmo “acabasse por revestir um caráter um tanto quanto grã-fino – o que não era de todo improcedente” e como dizia Flávio: “Detestamos elites; não temos sócios doadores.”

O CAM foi instalado no primeiro andar de um edifício da Rua Pedro Lessa, onde Flávio, Di Cavalcanti, Carlos Prado e Antonio Gomide mantinham seus ateliers. Esta rua ficava na movimentada parte baixa do Viaduto Santa Ifigênia, onde se concentravam vendedores de todos os tipos, dando-lhe o “pitoresco de uma sociedade boemia... o aspecto napolitano da Rua Anhangabaú, entre frutas, imprecações sírias, fileiras de salames, casas suspeitas, molecada suja, pelotões de guardas que entravam e saiam... e as sombras dos tabuleiros e treliças do viaduto, que tornavam o ambiente acolhedor e irresponsável”, como descrevia o próprio Flávio.

O salão onde seria instalado o Clube foi ornamentado por painéis pintados pelos seus fundadores. Geraldo Ferraz destaca que Flávio de Carvalho se mostra um “surrealista estranho, obediente à inconsciência da espontaneidade cheia de laivos de sublimação sexual”. Pela foto do jornal, reconhecemos, com Daher34 “um conjunto de bichos geometrizados. Círculos, cubos, cilindros, troncos de pirâmide, formam demônios flutuantes”.

A festa de inauguração contou com os painéis pintados por Flávio, outros de Di Cavalcanti, Carlos Prado e Antonio Gomide. A cantora Nair Duarte Nunes levou um bolo e Noêmia Mourão serviu vinho. O CAM chegou a apresentar inúmeras conferências: de Tarsila do Amaral, Caio Prado Junior, Jorge Amado, entre outros. Uma exposição de cartazes russos, de desenhos de crianças e de loucos. Recitais de música com Marcelo Tupinambá, Quarteto alemão Klein, Elsie Houston, Camargo Guarnieri, entre outros.

Quando organizaram a exposição da já consagrada desenhista e escultora expressionista alemã Kathe Kollwitz (1867-1945), Mário Pedrosa falou sobre as tendências sociais da arte que despertou grande interesse até mesmo pela novidade da abordagem entre os artistas de São Paulo freqüentadores do Clube.

A presença e a conferência do o pintor mexicano Siqueiros, causou grande impacto, principalmente pela fama e a eloquência do orador. “Siqueiros empolgava a assistência, formava um verdadeiro campo magnético no auditório, [...] A assistência imóvel, hipnotizada sem o menor sinal de cansaço, escutou durante quatro horas.”

Flávio de Carvalho animava todos os eventos, e incentivava os debates chegando a criar, propositadamente controvérsias, o que transformou o CAM no ponto de encontro quase obrigatório dos intelectuais, artistas e boêmios da cidade.

Exposição de crianças e loucos

Em 1933 Flávio de Carvalho organizou no CAM uma exposição com desenhos de loucos e crianças e que causou um grande escândalo na perplexa São Paulo da época. Também era um ataque frontal ao gosto da classe media e aos métodos e à estética da Escola Nacional de Belas Artes.

“As classes médias, possuindo sensibilidade média, nos raros momentos de romantismo deixam de lado o material que pertence a uma percepção mais apurada e mais sensível, só escolhem aquilo que representa em alguma forma a si mesma, isto é, coisas da percepção média e banal. [...] O espírito médio deixa, portanto, de lado a única arte que contém valores artísticos profundos: a ARTE ANORMAL, bem a arte subnormal, as únicas que prestam porque contém o que o homem possui de demoníaco, mórbido e sublime, contém o que há de raro, burlesco, chistoso e filósofo no pensamento, alguma coisa da essência da vida.

[...]A arte praticada pelas crianças é também de grande superioridade artística quando não sofre a influência do mestre. [...] As escolas de belas artes são às vezes focos de embrutecimento. Os professores são muitas vezes indivíduos déspotas, cheios de sua personalidade, que procuram aniquilar e esmagar o que a criança tem de espontâneo e de interessante e impor as sua personalidade à criança. O desabrochar da emoção parece ser coisa tumultuosa e a beleza reside na força dessa emoção e na magnitude do tumulto, porque assim sendo caracteriza mais o problema em foco. Parece que a forma anárquica a arte, arte sem mestre, é a que mais valor pictórico contém“.

Annateresa Fabris, curadora da Exposição Nacional de Arte Incomum na XVI Bienal de São Paulo em 1981 atribui a Flávio a visão pioneira na abordagem do tema:

“Sem querer chegar a afirmar que o Brasil é pioneiro neste tipo de pesquisa, torna-se necessário lembrar, no entanto, a polêmica de Flávio de Carvalho, uma vez que, pelo menos em duas frentes, ele antecipa a posterior campanha de Dubuffet em prol da arte não-cultural: quando afirma ‘a importância psicológica e filosófica da arte do louco e das crianças’, quando se opõe às ‘paredes opressoras e asfixiantes da Escola de Belas Artes que, corrigindo e polindo, procuram sempre impor aos alunos a personalidade freqüentemente mofada e gasta dos professores’”.

Teatro de Experiências

Finalmente, Flávio instalou no andar térreo da sede do CAM o seu “Teatro de Experiências“ onde encenou sua peça teatral “Bailado do Deus morto” que desagradou profundamente a igreja.

O jornal “O século”, chamado de jornaleco por Flávio39, noticiou o fato: “O ‘Teatro de experiência’ do ‘Clube dos Artistas (?) Modernos (?) é um atentado à cultura e à dignidade do povo paulista. [...] é um disfarce da mais deslavada e cínica propaganda bolchevique que São Paulo tem visto. Os comunistas desta engraçada instituição são todos bons burgueses decadentes. [...] em matéria de psiquiatria e obscenidade S. Paulo nunca viu coisa igual...[...] Pelo ‘bailado do deus morto’ (‘deus morto’ é hoje Marx) pode um cristão fazer uma idéia aproximada do que é a ação bolchevique, e sobretudo do que é a mentalidade patológica dos que a propugnam. O ‘bailado do deus morto’ não chega a ser uma blasfêmia ou um sacrilégio. Inspira-nos piedade.”

E assim, após a terceira apresentação da peça a policia fechou o teatro e suspendeu suas atividades, o que ensejou, inutilmente, protestos e um abaixo-assinado de artistas e intelectuais. Foi o fim do CAM que ainda tentou sobreviver sem a presença de Flávio, mas não logrou êxito. Flávio era a “alma” do CAM.

O NOVO HOMEM – O HOMEM NU

“‘Todos fazem, eu faço’ ecoa eternamente, ensurdecedora e tragicamente.
A nova humanidade só pode admitir a arte sob uma formula diversa: ‘Todos
fazem, eu não faço’ [...] A nova arquitetura, para não cair na monotonia das
coisas, precisa ser emotiva e romântica. Precisa criar novos ideais, precisa mu
dar sempre...”41
Flávio de Carvalho

Como arquiteto/urbanista Flávio não se atem aos aspectos apenas formais ou estéticos, de conforto, abrigo e bem estar. Sua meta era criar uma casa moderna, inserida em uma cidade planejada e cujos moradores tivessem um convívio comum, dentro de uma nova estrutura familiar e social e com novas relações coletivas e privadas. Refletindo as perguntas que ele, juntamente com Geraldo Ferraz, havia feito para o arquiteto Le Corbusier, em 1929, em relação às necessárias preocupações da arquitetura moderna com a “arte da libertação” do filosofo Krishnamurti, as conquistas e avanços do estado bolchevique ou o valor psíquico da arquitetura. (Dias depois destas perguntas/intervenções Le Corbusier referiu-se a Flávio como um “revolucionário romântico”).

Este novo homem, livre de todos os preconceitos, sem medos, nem conflitos, o “Homem livre” de Krishnamurti, fruto de uma revolução interior total de autoconhecimento, viveria em paz e harmonia, liberto de todos os tabus.

Na “A cidade do homem nu”, tese apresentada em 1930 no IV Congresso Panamericano de Arquitetos, realizado no Rio de Janeiro, onde Flávio apresentou-se como “delegado antropófago”, a missão dos povos nascidos fora do peso das tradições seculares, seria o de criar o habitat do homem novo, despido dos preconceitos da civilização burguesa, livre dos condicionantes da igreja, sem Deus, sem propriedade e sem matrimonio.

“[...] fundou-se, há alguns anos, a ideologia antropofágica, uma exaltação do homem biológico de Nietsche, isto é, a ressurreição do homem primitivo, livre dos tabus ocidentais, (...) sem a cultura feroz da nefasta filosofia escolástica. O homem, como ele aparece na natureza, selvagem, com todos os seus desejos, toda sua curiosidade intacta e não reprimida. O homem que totemiza o seu tabu, tirando dele o rendimento máximo. [...]

O homem antropofágico, quando despido de seus tabus assemelha-se ao homem nu. A cidade do homem nu será sem dúvida uma habitação própria para a o homem antropofágico.”

A cidade do moderno homem nu era toda dividida em zonas, organizada segundo funções combinadas visando o máximo de eficiência.

“A cidade de hoje apresenta um aspecto heterogêneo e ridículo: ela é a imagem ética do patriarquismo burguês, em decomposição, e é incapaz de se manter integra, de se defender contra os apetrechos agressivos inventados pelos homens,” declara Flávio para o jornal Diário da Noite em 17 de março de 1932. E ainda: “ A cidade inteira será a casa do homem de amanhã e terá como proprietário único o Estado”.

OUTROS FLÁVIOS

“Espírito inquieto, transitou por todos os campos da arte, do ballet ao cinema,
carregando a bandeira do modernismo, da insatisfação e da reforma cultural;
ele levou à rua, sob pena de linchamento, as idéias estéticas que os intelectuais
da Semana de Arte Moderna de 22 haviam discutido entre quatro paredes.
É por isso que podemos dizer que a revolução modernista no Brasil se chama
Flávio de Carvalho.”
Paolo Maranca

Mas Flávio foi muito mais. Etnólogo e antropólogo publicou ensaios e organizou expedições em busca ora, da Deusa Loura e a tribo de índios brancos, quando percorreu 300 quilômetros na selva amazônica. Ora o berço dos gafanhotos, numa expedição planejadíssima, mas nunca realizada ou então a viagem ao Araguaia, com o cineasta Mauro Civelli.

Além de fazendeiro, engenheiro e construtor também foi empresário, sem nenhum sucesso em suas empreitadas: a pioneira Tropicaluminio, fábrica de venezianas ‘especialmente desenvolvidas para os países tropicais’ ou a loja de laticínios “Vaca”, onde vendia produtos de sua fazenda.

Como engenheiro, arquiteto e urbanista, participou de inúmeros concursos não obtendo êxito em nenhum deles, mas granjeando a simpatia de importantes modernistas, como Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, quando ainda iniciava sua atuação no Brasil.

Sua contribuição como “agitador cultural” foi importantíssima na história das artes no Brasil, com a criação do CAM e dos Salões de Maio, com iniciativas como a de trazer para expor no Brasil, pela primeira vez, obras importantes como de Ben Nicholson, Alexander Calder, Alberto Magnelli, Josef Albers, Kathe Kollwitz, Siqueiros, entre outros.

Enfant terrible, revolucionário romântico, pintor maldito, comedor de emoções, performático precoce, javali do asfalto, todas estas definições deixam claro que Flávio incomodou, abriu caminhos, provocou, propôs desafios e sobretudo deixou uma obra rica e poderosa, ajudando a mudar, para sempre, a história das artes plásticas no Brasil.

“(...)Foi-se mais um gigante.
Fica-nos para sempre mais um gigante.
Flavio Leonardo Cocteau Schoffer Apolinaire Quant de Carvalho - tataraneto
pré-hippie da Rainha Santa”.44
Jayme Maurício