Sob um céu tropical


Exposições coletivas sempre foram frequentadas e valorizadas, quer pela variedade de artistas e obras, quer pelas opções múltiplas de aquisição. Esta mostra reúne uma seleção significativa de artistas e trabalhos de tal qualidade. É a um só tempo exceção e privilégio reunir tal quantidade de obras, excelentes para figurarem nos melhores acervos e coleções.

A opção de agrupar os dez artistas em três segmentos foi propositadamente didática. No primeiro grupo estão os modernistas — Emiliano Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral — e um muito próximo deles — Antonio Gomide; no segundo, grosso modo, os pós-modernistas — Ismael Nery, Flávio de Carvalho, Cândido Portinari e Cícero Dias e, no terceiro, os contemporâneos — Mira Schendel, Leon Ferrari e Vik Muniz.

Di Cavalcanti (Rio de Janeiro/RJ, 1897 – 1976), artista consagrado por estilo e temática personalíssimos, foi um dos precursores do Modernismo Brasileiro, personagem-chave da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. As obras dele selecionadas são de composição complexa, com planos de perspectivas elaborados e intensidade dramática.

A pintura aqui exposta de Tarsila do Amaral (Capivari/SP, 1886 – São Paulo/SP, 1973) caracteriza-se pela ingenuidade afetiva e bem brasileira, de história muito pessoal e cara à artista. Tarsila é mito notável no cenário cultural do nosso país e artista de alcance universal.

Antonio Gomide (Itapetininga/SP, 1895 – Ubatuba/SP, 1967) foi requintado tradutor do espírito do Art Déco, artista múltiplo e culto. Para esta mostra, suas obras têm excelência incontestável — três cenas pastoris e oníricas, de composição clássica.

Ismael Nery (Belém/PA, 1900 – Rio de Janeiro/RJ, 1934) e Flávio de Carvalho são artistas emblemáticos, de vanguardismo que deixou raízes e fez escola por aqui. Os dois tinham personalidades e vivências marcadas por polêmicas e, em maior ou menor grau, experiências artísticas bastante especiais. As obras de Ismael remetem ao Surrealismo, segundo muitos — mas nelas pontifica a delicadeza de execução etérea que, pela dualidade da vida do artista — intensamente religioso e revolucionário — transmitem a sensação de insatisfação, de busca por algo ainda não inteiramente experimentado.

Flávio de Carvalho (Barra Mansa/RJ, 1899 – Valinhos/SP, 1973), além da série de desenhos e pinturas, está magnificamente representado por um trabalho antológico: o famoso “Traje Tropical” (e mais uma segunda versão) — ousadia sem precedentes para a época em que foi concebido e mostrado, numa performance que chocou e sacudiu a pacata vida da ainda provinciana São Paulo. O “Traje Tropical” foi prova marcante do sentido nacionalista e social deste nome, que muitas vezes deixou de ser elevado ao merecido lugar na cultura de nosso país.Cândido Portinari (Brodowski/SP, 1903 – Rio de Janeiro/RJ, 1962) é outro ícone nacional, nome dos mais presentes e respeitados, clássico da pintura brasileira. Sua obra vai da delicadeza dos desenhos, flores e arte de caráter religioso ao muralismo de grandes dimensões das obras de cunho social e profético.

Cícero Dias (Jundiai/PE, 1907 – Paris/França, 2003, onde morou a partir de 1937) teve seu grande período representativo principalmente nas obras dos anos 1920-1940, exatamente o destas três aquarelas expostas, vanguardistas em sua temática tão brasileira, “modernas” ao extremo e remetendo ao etéreo da obra de Chagall.

Dos contemporâneos representados na exposição, vale lembrar o destaque internacional que experimenta Mira Schendel (Zurique/Suiça, 1919 – São Paulo/SP, 1988; no Brasil, a partir de 1949), feitora de uma arte de rico simbolismo e muito “antenada” com as coisas de seu tempo — pintora e desenhista de signos e significados implícitos, elaborada engenharia a ser decifrada pelo observador.

Leon Ferrari (Buenos Aires/Argentina, 1920 e no Brasil, entre 1976 e 1984) marcou época como polemista e iconoclasta. Tem obra perturbadora, que instiga a uma revolução interna e a inquirições constantes.

Vik Muniz (Sao Paulo/SP, 1961 e vivendo nos EUA) é literalmente gigantesco. Suas apropriações têm o impacto das dimensões e a lembrança de obras já incluídas no imaginário coletivo, sempre executadas com técnica pessoal e requintada.

A maioria das obras aqui expostas é inédita em mostras públicas, o que reforça o interesse da exposição. Um elo quase comum entre estes artistas é o fato de todos eles terem experimentado a vibração e a intensidade de produzir “sob um céu tropical” — exceção feita a grande parcela das obras de Cícero Dias (que viveu longo período em Paris), Leon Ferrari,argentino principalmente ativo em seu país natal, e Vik Muniz, radicado há algum tempo no exterior. O conjunto reunido é, dessa forma, tradutor da diversidade e das experimentações das coisas criadas sob o impacto e os simbolismos deste "novo mundo", eclético e díspar.