Danilo di Prete (1911 - 1985).
Construindo carros alegóricos
Danilo Di Prete nasceu em Zambra (Itália) no ano de 1911 e faleceu em São Paulo-SP em 1984.
Autodidata, iniciou sua carreira aos 20 anos, participando de diversas coletivas na Itália.
Também trabalhou anos seguidos preparando carros alegóricos e bonecos em "papier maché" para os desfiles carnavalescos de Viareggio, uma experiência que, no seu entender, muito iria ajudá-lo décadas mais tarde, quando adotou como linguagem a arte cinética, porquanto naqueles carros - cheios de luzes, cores e sons -, utilizava recursos de marceneiro, eletricista, mecânico e ferramenteiro:
É ele quem diz:
«A meu modo de ver, a arte deve ter alma, vida e movimento. Hoje me parece que um quadro apenas pintado é um objeto morto numa parede.
«Pois os meus quadros têm luz, som, ruídos, movimentação eletrônica, vida. Uma arte não só cinética, mas com som, também.»
No Brasil, a idéia de uma Bienal
Durante a II Guerra Mundial foi telegrafista e participou do Grupo de Artistas Italianos em Armas com trabalhos que representavam cenas da guerra na Albânia, Grécia e Iugoslávia.
Findo o conflito, embarcou para o Brasil, onde chegou em setembro de 1946, logo se radicando em São Paulo, onde exerceu, por quatro anos consecutivos, a profissão de programador visual.
Amigo de Francisco Ciccilo Matarazzo Sobrinho, foi quem lhe sugeriu a criação, em São Paulo, de uma Bienal de Arte, à semelhança da que se fazia em Veneza.
Concretizando-se essa sua idéia, participou, entre 1951 e 1967, de todas as Bienais de São Paulo, tornando-se nacionalmente conhecido e discutido depois que o seu quadro Limões conquistou, na 1ª Bienal, em 1951, o prêmio nacional de pintura.
Exposições
Di Prete figurou, ainda, em diversos certames artísticos importantes, dentro e fora do Brasil, como:
Salão Nacional de Arte Moderna de 1952.
o Salão de Maio parisiense desse mesmo ano.
26ª e a 30ª Bienais de Veneza, em 1952 e 1960.
1ª Bienal Americana de Córdoba, na Argentina, em 1962.
Mostra itinerante Arte Atual Brasileira, que em 1965 percorreu vários países da Europa.
Também expôs em diversas ocasiões individualmente, a partir de 1962.
Arte em movimento
Partindo de uma arte figurativa intimista, regida por suaves contrastes de forma e cor, a pintura de Di Prete atravessaria diversos estágios a partir da década de 1960.
Nesse processo de transformação, buscou sucessivamente a sedução do abstracionismo informal. Abandonada a bidimensionalidade, encontrou na arte cinética, talvez, sua mais forte expressão.
Numa entrevista concedida ao jornalista Luís Ernesto Machado Kawall em 1972, assim se referiu o artista ao tipo de arte que então produzia:
«Mesmo quando fazia arte figurativa, sempre me preocupei com o cósmico, o segredo espacial, o universo indecifrável.
«Isso até hoje, quando procuro integrar à arte cinética essa relação fantástica com o mundo irreal, misterioso, imprevisível em que vivemos.
«E também estou pensando em introduzir nos meus objetos, além de movimento e luz, música eletrônica e poemas falados.
«Na vida de hoje, desumana, burocratizada, mercantilista, todo mundo só pensa em se "desligar". Então, os objetos que vou fazer doravante servirão ao homem moderno, serão utilitários.
«Depois de chegar "arrasado" da cidade, ele ficará em sua casa, muitas horas, diante deles, escutando seus sons, vendo seus movimentos coloridos e eletrônicos.»
Experimentando sempre
Grande experimentalista, utilizando com idêntica desenvoltura suportes e materiais tradicionais, lado a lado com telas de arame, nailon, sucata, lâmpadas, tubos galvanizados, acrílico e motores elétricos, Di Prete imprimiu a todos esses elementos a marca de sua inquieta lucidez, merecendo essas palavras consagratórias de José Geraldo Vieira:
«Como se não lhe bastassem os estratagemas do trompe loeil, Danilo vai mais longe do que Le Parc e Schoeffer.
«Danilo associa aos recursos plásticos o movimento pendular de lâmpadas acesas mas invisíveis que, indo e vindo, desvendam um espaço interior, uma nova dimensão pulsátil.
Elas despertam, no bojo e na periferia dos quadros misteriosos, fulgores de diamantes, ágatas, rubis, safiras, topázios, opalas, esmeraldas, ametistas, turquesas, sílicas, quartzos, granadas, coridons e berilos
«Brilhantes que são, obrigam aquelas maçanetas, aqueles fundos de garrafas, aquelas lascas, aqueles seixos a se transformarem em gemas, em grutas de Capri, em torsos siderais, enquanto as redes de náilon se põem a vibrar em ondas moirées.
«Trata-se de arrojado sincretismo de recursos que, renovando a obra de Di Prete, a elevam ao mais alto gabarito da arte contemporânea universal.
Di Prete