Ângelo Augusto Venosa (São Paulo SP 1954). Escultor. Freqüenta a Escola Brasil:, em São Paulo, em 1973. No ano seguinte, transfere-se para o Rio de Janeiro, onde estuda na Escola Superior de Desenho Industrial - ESDI, e concluí o curso em 1977. No início da década de 1980, realiza cursos no ateliê livre da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV/Parque Lage). Em 1984, passa a realizar obras tridimensionais. As esculturas do início dos anos 1980 associam indistintamente materiais naturais e produtos industrializados. A partir do início dos anos 1990, o artista utiliza materiais como mármore, cera, chumbo e dentes de animais, realizando obras que lembram estruturas anatômicas, como vértebras e ossos. Suas esculturas e objetos carregam indícios que remetem a eras ancestrais, surpreendendo pela estranheza e pelo caráter inquietante.
Comentário Crítico
Angelo Venosa é um dos poucos artistas dedicados à escultura egressos da chamada Geração 80. Inicia a carreira artística participando de significativas exposições como Pintura! Pintura! no Rio de Janeiro. Em 1984, faz suas primeiras incursões ao universo do tridimensional. Sobre o trabalho com a escultura e o abandono da pintura, o artista declara: "Foi com a pintura que comecei minha disciplina de trabalho. (...) A passagem para escultura foi um rompimento com o que eu considerava a linguagem por excelência (a pintura) e a descoberta de que era possível criar um trabalho pessoal, com meus próprios meios".1
As obras realizadas no período apresentam um amálgama de materiais díspares, sem distinção entre elementos da natureza e produtos da indústria: estruturas de madeira ou galhos de árvore são em geral revestidos ou unidos a tecidos, borracha, fibra de vidro, bandagem gessada, piche etc., criando formas a situadas entre o orgânico e o artificial, a figura e o disforme. As estruturas tridimensionais de Venosa exploram uma horizontalidade pouco usual na escultura brasileira.
No início dos anos 1990, o artista incorpora materiais como cera, chumbo, mármore e dentes de animais à sua obra, ao mesmo tempo que passa a trabalhar com figuras reconhecíveis como vértebras e ossos. Suas peças tornam-se menores e surpreendem mais pela estranheza e caráter inquietante do resultado (como o conjunto circular formado por ossos esculpidos em mármore ou a grande peça em forma de fêmur composta de 142 anéis de aço empilhados) do que por sua ocupação espacial. Nessa mimese do mundo animal, a "forma de osso se torna arbitrária, e revela a fragilidade da distinção entre orgânico e inorgânico",2 mantendo o contraste entre organicidade e formalização presente nos trabalhos da década anterior.
A manipulação de materiais em camadas para construção de suas formas passa a ser a tônica de seus trabalhos mais recentes, como as esculturas em lâminas de vidro. Nelas a clareza da estrutura é confrontada à forma final. Com uma intervenção urbana no evento Arte/Cidade/Zona Leste, em 2002, Angelo Venosa reitera seu interesse pela polarização organização/desorganização, ao pendurar nas estruturas metálicas do teto de um antigo galpão ferroviário cordas que mimetizam o esqueleto arquitetônico do galpão. Tal ação, em vez de enfatizar a estrutura original, a liquefaz e estabelece em seu lugar uma geometria maleável, que em seu dinamismo poderia apontar para a falta de estruturação fixa da cidade de São Paulo.
Notas
1 Depoimento do artista a Marcio Doctors. In: No Ateliê da Lapa. Rio de Janeiro: 1986.