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mar

31

O homem de pedra – Sergio Camargo

Postado por Alcides Ribeiro Júnior

Documentário que estreia no “É Tudo Verdade”, em abril, novo livro e mostra no Rio em setembro marcam os 20 anos da morte do artista Sergio Camargo.

O artista plástico Sergio Camargo com uma de suas esculturas de mármore branco.

O artista plástico Sergio Camargo com uma de suas esculturas de mármore branco.

Não era como o das outras meninas o pai de Maria Camargo. “Eu o via sentado no ateliê, capaz de ficar horas e horas olhando para as árvores, um único ponto”, lembra a filha do artista Sergio Camargo. “Aquilo era meu pai trabalhando.”
Só depois de grande, entendeu que ele enxergava em tudo, do tronco de uma árvore no quintal à mordida numa maçã, uma espécie de ordem secreta. Depois tentava eternizar essa ordem nos contornos do mármore branco que talhava.
Sergio Camargo, um dos maiores nomes da vertente construtiva no Brasil, morreu há 20 anos, quando a filha ainda era adolescente. Agora, roteirista de cinema, ela decidiu juntar os cacos dessa memória num curta-metragem que estreia no mês que vem, dentro do festival É Tudo Verdade, relembrando a vida desse artista que faria 80 anos em abril.
Na esteira do filme, um livro preparado por ela e pela artista Iole de Freitas sai no segundo semestre com os textos deixados pelo artista. Em setembro, o Paço Imperial, no Rio, recebe uma grande retrospectiva das obras de Sergio Camargo, que depois abre o calendário de 2011 do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires.
“Precisei pensar em quem era essa pessoa que era meu pai, quem era esse artista”, diz Maria Camargo em entrevista à Folha. “Só o tempo é capaz de tornar nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras.”
São dela as palavras que abrem o filme. Dizem que o escultor que ganhou fama na Documenta de Kassel e na Bienal de Veneza, que bateu a marca de US$ 1,6 milhão -maior valor absoluto já pago pela obra de um brasileiro- num leilão da Sotheby’s de Nova York em novembro passado, gostava de tango, Pixinguinha, sorvete de abacaxi e Roberto Carlos. Também que ele odiava heavy metal, novelas e humor grosseiro.
Não é o Sergio Camargo da luz e da geometria empírica do mármore esse que está em “Se Meu Pai Fosse de Pedra”. É o homem pai da cineasta, obcecado pelo trabalho, um tanto ausente, que deixava pistas dos pensamentos em guardanapos e anotações datilografadas.
“Tem poemas dos 15 anos de idade, você já vê neles um olhar para a geometria, a lua no céu, as circunferências”, lembra Maria. “Ele tinha uma coisa febril em torno da obra dele, não ficava um dia sem trabalhar.”

Coisas vãs fundamentais

Nem sem escrever. “Preciosas Coisas Vãs Fundamentais”, o livro com os textos do artista, faz uma seleção das folhas que sua filha achou pelo ateliê. Numa delas, Camargo fala do “ceder da árvore ao vento”, que “é natural, porém comove”. Também se pergunta se suas construções não passam de “banais feitos de concretude airosa”.
São devaneios arfados depois cortados pelo pé no chão, o peso da matéria, a “casa na paisagem” e a “paisagem na casa”.
“É o mesmo raciocínio do texto que estrutura as esculturas”, diz Iole de Freitas, amiga de Camargo e uma das editoras do livro. “São escritos com uma poética própria do Sergio, com uma elegância, uma sensibilidade e ironia muito grandes.”
Talvez por causa dessa mesma sensibilidade, Camargo era convidado o tempo todo por artistas mais jovens, como Lygia Clark, Mira Schendel e mesmo Iole de Freitas a visitar seus ateliês e opinar sobre os trabalhos ainda em construção.
“Quando ia lá, dizia que queria ver as sobras, tinha muito mais interesse pelo esboço, as coisas que viriam a ser”, lembra Freitas. “Percebia o âmago do processo, atitudes nascentes.”
Esse mesmo pensamento estava nas próprias obras. Camargo trabalhava medidas exatas, aniquilava excessos, lapidava a escala. “Ele tinha um tino para o espaço que era uma coisa sensacional”, lembra Raquel Arnaud, galerista que conheceu o artista nos anos 70 e hoje detém seu espólio. “Por isso, ele não tem obra com defeitos.”
Foi Arnaud que fechou o ateliê do artista em Massa, na Itália, quando ele morreu. Tinha instruções dele para jogar fora tudo que fosse ruim, atitude que reflete até hoje no valor que suas obras atingiram. “Passamos vários dias lá, num frio louco, vendo obra por obra”, lembra Arnaud. “Aí que a gente viu que ele tinha morrido.”

mar

30

Experiências secretas – Flávio de Carvalho

Postado por Alcides Ribeiro Júnior

Numa sala de luz fria, a arquivista usa luvas brancas para mexer nas pilhas de papéis. Um silêncio incômodo contrasta com os documentos de alta voltagem nessas caixas de plástico.

Depois de mais de dez anos de negociações, a Unicamp comprou a metade que faltava dos arquivos de Flávio de Carvalho (1899-1973), até agora na casa de um amigo do artista.

Bastidores da "Experiência n. 3", quando criou o "New Look", em foto do arquivo
No fim de vida solitário que teve, Carvalho deixou com J. Toledo, autor do “Dicionário de Suicidas Ilustres”, que depois se matou, quase tudo o que estava em seus arquivos na fazenda Capuava, em Valinhos (SP).
Juntou pó até agora esse conjunto de projetos arquitetônicos, filmes inéditos, manuscritos e textos sobre moda e psicanálise. Abertas as caixas, o silêncio sobre a figura ímpar de Carvalho, um dos maiores e mais polêmicos nomes do modernismo, começa a se dissipar.

Flavio de Carvalho - Traje de verão
Dessas caixas empoeiradas vai sair uma boa parte do que estará nas mostras dedicadas ao artista neste ano -da retrospectiva no Museu de Arte Moderna à Bienal de São Paulo, passando por exposição no Reina Sofía, em Madri- e um livro com reflexões sobre a moda.

No “álbum dos comensais”, como Flávio de Carvalho chamou seus recortes fotográficos e memórias pessoais, estão mensagens de Oswald de Andrade, Maria Della Costa, Eleazar de Carvalho e outros que passavam temporadas de ócio na fazenda Capuava, construção emblemática do modernismo no Brasil, que o artista projetou para ser a sua casa.
“Sem óculos, só posso ver com os olhos da alma”, anotou o autor de “O Rei da Vela” num canto. “E os olhos da alma tenho sempre voltados para o antropófago Flávio de Carvalho.” Nos anos 50, quando jantares na fazenda em Valinhos tomavam ares expressionistas e festas à beira da piscina de luz vermelha arrebanhavam a nata intelectual do país, Carvalho já era a figura histriônica que irradiava a vertente mais libertária do pensamento modernista.
Àquela altura, já tinha desafiado uma procissão de Corpus Christi, indo contra o fluxo de boné e flertando com as devotas -a chamada “Experiência n. 2″. Desenhos que fez de sua mãe morrendo, a célebre “Série Trágica”, chocaram o público. Sua primeira exposição tinha sido fechada pela Delegacia de Costumes por causa dos nus e seu Teatro da Experiência, interditado pelas heresias da peça “Bailado do Deus Morto”.
É a mesma peça que a Bienal de São Paulo pretende reencenar em Valinhos e transmitir em tempo real para o pavilhão no Ibirapuera em setembro.
Seu projeto arquitetônico para o palácio do governo do Estado de São Paulo, que está nos arquivos recuperados, tinha canhões de luz tão cenográficos quanto as máscaras de alumínio que inventou para o palco e pistas de pouso para aviões em terraços simétricos.

Flávio de Carvalho - Traje de verão

Era uma obra mais de atitude do que resultado formal. Carvalho falava numa “revolução estética” como “fenômeno de turbulência, com polarização de forças anímicas básicas”.
E ele desenhou esse contraste no ato de se vestir. Quando encena sua “Experiência n. 3″, de meia arrastão, saia e chapéu, está ao lado de senhoras comportadas em plena metade dos anos 50. Carvalho desfilou pelas ruas de São Paulo com seu “traje de verão”, propondo uma nova arquitetura do corpo, no mesmo ano em que Juscelino Kubitschek lançou os planos para a construção de Brasília, utopia arquitetônica nacional.
Mas fica difícil entender que fragmento de cada uma das experiências era a obra em si. Depois de escapar ao linchamento na procissão de 1931, escreveu um livro de reflexões. As roupas que usou no verão de 1956 já foram exibidas como se fossem obra de arte, mas foi a caminhada em si, da qual restam só fotografias, que contou.

Na mostra que o Museu de Arte Moderna de São Paulo abre em meados de abril, documentos das performances, livros de sua biblioteca guardada na Unicamp, além de um recorte de seus desenhos e pinturas, vão tentar dar conta da história.
No Reina Sofía, em maio, detalhes de seus projetos arquitetônicos vão mostrar outra cara do ser fragmentário chamado Flávio de Carvalho.

Fonte: Folha de S. Paulo

mar

30

Exposição reúne 17 esculturas de Artur Pereira em SP

Postado por Alcides Ribeiro Júnior

Artur Pereira - Esculturas

Artur Pereira - Esculturas

É bicho, uai!”, dizia o escultor Artur Pereira (1920-2003) quando lhe perguntavam sobre o que representavam suas peças em madeira. Mas uma onça, uma ave, um cão, um tatu – o importante não é nomear a figura, defendia, a seu jeito, o artista do pequeno vilarejo de Cachoeira do Brumado (MG). A história do “bicho, uai” está contada pelo crítico Rodrigo Naves no catálogo da mostra dedicada ao artista, a ser inaugurada hoje, às 19 h, para convidados e amanhã para o público no Instituto Moreira Salles (IMS), em São Paulo. A exposição, já apresentada pelo IMS no Rio e em Poços de Caldas, reúne 17 esculturas de Pereira.

A simplificação/sofisticação das obras do escultor “aponta antes para uma natureza unitária e emotiva, anterior às classificações que as necessidades humanas nela introduziram”, continua o crítico, relacionando a arte do mineiro à do moderno romeno Constantin Brancusi. Com a exposição, se faz a oportunidade de ver um conjunto reunido de sua arte.

Artur Pereira era um dos três criadores preferidos do grande mestre do corte e dobra brasileiro, o escultor mineiro Amilcar de Castro. Desde a década de 1970, ele é reconhecido e colecionado, mas, como diz o curador da mostra do artista no Instituto Moreira Salles, Ricardo Homem, só agora se organiza a primeira retrospectiva de sua obra. “Após sua morte, o trabalho de Artur Pereira praticamente não pôde mais ser visto em lugares públicos. Permaneceu restrito a um círculo de colecionadores privados que mantém suas peças com zelo e encanto comoventes”, define o curador – mas a obra de Pereira já esteve em mostras coletivas de peso.

Cedro

Apreciador sobretudo do cedro, madeira que tinha à disposição, o artista, que antes de se dedicar à escultura trabalhou como lavrador, carvoeiro, pedreiro e carpinteiro, realizou, até 1968, peças de figuras únicas. Até começar a criar obras pelas quais um estilo mais próprio ainda se consolida, a criação de esculturas cilíndricas vazadas, curiosamente, cavadas e concretizadas em monoblocos de madeira. São suas colunas, algumas, suas ”galhadas” repletas de animais. Peças de todos os períodos, a ”leveza do mundo” criada pelo artista, figuram na mostra. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Artur Pereira. Instituto Moreira Salles.
Rua Piauí, 844.
Telefone (011) 3825-2560.
13 h/19 h (sáb. e dom. até 18 h; fecha 2ª).
Grátis. Até 30/5.

mar

30

“Coleção Brasiliana Itaú” traz imagens remotas

Postado por Alcides Ribeiro Júnior

Mais uma exposição resgata o trabalho de viajantes que cruzaram o Brasil no passado e deixaram obras cujo valor artístico se equipara ao histórico. Depois de Hercules Florence e da expedição Langsdorff, ambas em cartaz, a Pinacoteca recebe, a partir de sábado (6), a “Coleção Brasiliana Itaú”, com 300 itens que ajudam a contar a história do país.

ECKHOUT, Albert Retrato de Menino, 1637

ECKHOUT, Albert Retrato de Menino, 1637

“É reflexo de um interesse maior de todos pela arte do passado”, diz o curador Pedro Corrêa do Lago. A mostra traz mapas, ilustrações, pinturas e objetos que passaram pelas mãos da família real portuguesa.

Um dos registros mais fascinantes é a “Vista da Cidade de São Paulo” (1821), de Arnaud Julien Pallière, uma das raras telas que retratam a cidade antes do advento da fotografia. Já gravuras de Jean-Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas ocupam uma vitrine que retrata a vida dos escravos.

Lago defende que “essas obras documentais têm grande valor artístico”, sendo que, às vezes, reproduzem uma visão romantizada. Ele destaca como exemplo de exuberância estética a vista de São Luís do Maranhão pintada pelo italiano Giuseppe Leone Righini.

“Coleção Brasiliana: Versões e Narrativas”

Pinacoteca do Estado – Praça da Luz, 2
De 11 de outubro a outubro de 2008
De terça a domingo, das 10h às 18h
R$ 4 e meia-entrada
Grátis aos sábados
Tel: 3324-1000

Fonte: Folha Online

Exposição Brasiliana Itaú, na Pinacoteca do Estado. Obra de Eckout

Exposição Brasiliana Itaú, na Pinacoteca do Estado. Obra de Eckout

mar

24

Exposição em São Paulo reúne cem obras de Hélio Oiticica

Postado por Alcides Ribeiro Júnior

Mostra exibe várias obras do artista que sobreviveram a incêndio de 2009. Exposição espalha-se por diversos pontos da capital e abre domingo (21).

Será aberta ao público neste domingo (21), em São Paulo, a exposição “Hélio Oiticica – Museu é o mundo”, sediada pelo Itaú Cultural e com instalações espalhadas por diversos pontos da cidade.

Cama 1

Cama 1

A mostra exibe várias peças que sobreviveram a um incêndio, ocorrido em 2009 no Rio de Janeiro, em uma casa que armazenava grande parte do acervo do artista.
Segundo seus curadores, Fernando Cocchiarale e César Oiticica Filho, a mostra é a maior já vista na capital paulista sobre o trabalho do artista carioca – são, ao todo, cem obras de Oiticica reunidas.

Além de ocupar três andares do prédio do Itaú Cultural, a exposição exibe trabalhos do artista em locais como o Parque Ibirapuera, a Casa das Rosas, o Teatro Oficina, a Pinacoteca do Estado e o Parque Mário Covas.

Entre os destaques, ao lado de12 de seus conhecidos Parangolés e da instalação Cosmococa, estão obras como “Macaleia” (feita em homenagem ao compositor carioca Jards Macalé), “A invenção da luz” (estrutura composta por transparências) e “PN 28 ‘nas quebradas’” (que se assemelha a vielas de uma favela).

Dentre as peças que não sofreram avarias com o incêndio do ano passado, estarão expostas na mostra as instalações “PN 27 ‘Rinaviera’” e “B57 bólide cama 1″.

A invenção da luz

A invenção da luz

Junto às obras, “Hélio Oiticica – Museu é o mundo” compila textos deixados pelo artista que complementam o entendimento de sua arte.

Vanguardista, Oiticica, morto em 1980, é um nome essencial nas artes plásticas do Brasil e talento reconhecido no mundo todo.

“Hélio Oiticica – Museu é o mundo”
Quando: De 21 de março a 16 de maio
Onde: Itaú Cultural, Casa das Rosas, Parque Ibirapuera, Teatro Oficina, Parque Mario Covas e Pinacoteca do Estado de São Paulo
Quanto: Grátis (com exceção da Pinacoteca, que cobra ingresso de R$ 3 a R$ 6 e é gratis aos sábados)
Informações: (11) 2168-1777 e http://www.itaucultural.org.br/

Fonte: G1 – Globo

mar

24

Aberta exposição com obras de Andy Warhol

Postado por Alcides Ribeiro Júnior

A exposição Andy Warhol, Mr. America foi aberta ao público de São Paulo neste sábado (20), onde fica em cartaz até o dia 23 de maio. São 44 filmes, 26 pinturas, 58 gravuras, 39 fotos e duas ilustrações expostas na Pinacoteca, próximo à estação da Luz do metrô.

Foto: AFP

Foto: AFP

Warhol é o nome mais conhecido do movimento chamado pop art, surgido na Inglaterra na década de 1950, mas que floresceu somente nos anos 1960. Os artistas da época usavam produtos do capitalismo (como embalagens e propagandas) para expressar arte, fazendo assim uma crítica ao consumo de massa.

A mostra foi organizada pelo The Andy Warhol Museum, de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e já passou por outros países da América Latina, como Colômbia e Argentina.

O público pode conferir as obras de Warhol de terça a domingo, das 10h às 18h. Os ingressos custam R$ 6, com possibilidade de meia entrada para estudantes do ensino fundamental, médio e superior.

Foto: AFP

Foto: AFP

Estação Pinacoteca

Largo General Osório, 66 – Luz – São Paulo/SP
Fone: (11) 3335-4990
Funcionamento: De terça a domingo, das 10h00 às 18h00

Fonte: Terra

mar

5

Exposição Anita Malfatti – CCBB de Brasília

Postado por Alcides Ribeiro Júnior

A São Paulo de 1917 ainda era muito provinciana para entender o que significava para a arte brasileira aquela exposição que acontecia na Rua Libero Badaró, 111. Ali, uma pintora que tentava esconder uma atrofia no braço e na mão direita, chamada Anita Malfatti, ousava mostrar para uma sociedade perplexa a mais pura arte expressionista.  Somente cinco anos depois viria a assimilação com o novo durante a Semana de Arte Moderna do Teatro Municipal, onde estavam 22 obras suas. No entanto, as críticas que recebeu e a insatisfação com sua própria arte a perseguiriam por quase toda a vida.

A Amiga - Anita Malfati

A Amiga - Anita Malfatti

A pressão da família, que não via futuro promissor para uma moça solteira deficiente e que não dava sinais de que poderia se tornar uma boa professora de arte, fez de Anita uma artista de muitas fases, inquieta, insegura e sempre incompreendida. Essa busca constante por se expressar livremente com os pincéis permeia a Retrospectiva Anita Malfatti – 120 anos, que estréia nacionalmente no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Brasília, de 22 de fevereiro a 25 de abril.

“Sem dúvida ela foi a pioneira do modernismo no Brasil. A exposição de 1917 inspirou o movimento. Fala-se em Lasar Segall ou  Belmiro de Almeida e Visconti como percussores, mas nenhum deles causou tanta polêmica. Ela teve repercussão. E quando a lenda ultrapassa o fato, publica-se a lenda”, afirma Luzia Portinari Greggio, que assina a curadoria da exposição.

Sobrinha de Cândido Portinari e sempre cercada por livros e quadros, seu interesse pela História e pela Filosofia da arte a levou até a vida e obra de Anita, o que lhe rendeu um prêmio de Estímulo de Curta-metragem da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, em 2001, pelo roteiro do documentário “Anita Malfatti”. A pesquisa sobre a vida e obra da pintora também resultou no livro Anita Malfatti – tomei a liberdade de pintar a meu modo, em 2007. E agora, a exposição comemorativa.

Greggio reuniu 120 obras de diversos museus e de coleções particulares que mostram inúmeras e diferentes Anitas. A primeira delas (de 1909 a 1914) é uma Anita naturalista-impressionista. Inclui o período em que ainda assinava como Babynha, como em seu primeiro quadro (Burrinho correndo – que estará exposto no CCBB), até o seu retorno de sua primeira viagem de estudos, quando esteve na Alemanha, onde o expressionismo explodia. Foi quando organizou sua primeira exposição individual em 1914. Essa fase reúne também algumas preciosidades como Meu irmão Alexandre e Mulher de vestido vermelho.

A segunda Anita, mostra sua fase mais esplendorosa (1915 -1922). É quando vai para os Estados Unidos e se entrega ao expressionismo. “A trajetória de Anita é singular. Todo mundo ia estudar na França. Ela foi para Alemanha e depois para os Estados Unidos, onde tinha parentes. Foi lá onde ela desabrochou”, lembra a curadora. A pintora rompe com todas as regras acadêmicas tão apreciadas pelos seus familiares, como o tio Jorge Krug, que financiará seus estudos no exterior, e a mãe, pintora clássica, Betty Krug, presença constante, rígida e autoritária na sua vida.

O homem amarelo - Anita Malfatti

O homem amarelo - Anita Malfatti

Exposição de 17

Mesmo com o escrachado desapontamento dos parentes com a produção artística que trazia na bagagem em seu retorno ao Brasil, Anita faz a exposição de 1917, onde apresenta obras que hoje são consideradas as mais significativas de seu acervo como A boba, A amiga, O farol, A onda, O homem amarelo, Ventania. Também é desta época o primeiro nu cubista brasileiro. “Ela tinha noção que a exposição de 17 ia ser um escândalo. Tanto que resolveu deixar essa obra (Nu cubista I) de fora”, conta Greggio, que incluiu o quadro na mostra.

Seus mais profundos receios recebem contornos dramáticos quando uma crítica de Monteiro Lobato, publicada no jornal O Estado de São Paulo, com o título de A propósito de exposição Malfatti, provoca um efeito devastador na sua exposição. Seus quadros foram devolvidos, outros destruídos. O único a levantar em seu favor foi Oswald de Andrade, o que a fez ser uma inspiração para um grupo de artistas ansiosos em promover uma revolução na arte brasileira.

“Foi ela. Foram seus quadros que nos deram essa primeira consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização das artes brasileiras. Pelo menos pra mim”, chegou a dizer Mario de Andrade em relação a Anita.

Retorno à ordem

Depois da Semana de Arte Moderna de 1922, Anita, que parecia ter encontrado seu lugar no famoso Grupo dos Cinco, mas parte, em agosto de 1923, para Paris, em nova viagem de estudos, desta vez financiada pelo Pensionato Artístico do Estado de São Paulo. Surge neste período, que dura até o final dos anos 20, uma nova face da pintora. “É o chamado “retorno à ordem”, ocorrido no pós-Segunda Guerra. Anita sofre influências de Matisse, Bonnard, começa a pintar interior-exterior, nus, temas recorrentes da época”, explica a curadora. São representativos dessa época os quadros La chambre bleue, Chinesa e Interior de Mônaco, que na exposição estará ao lado de seus estudos I e 2.

Ao retornar ao Brasil, no final de 1928, apesar do abandono à irreverência que marcou sua fase nos EUA, ela faz uma nova exposição sem grandes resultados financeiros e decide, a partir daí, a adotar uma postura ainda menos polêmica. Surge uma Anita muito mais acadêmica. Alguns acreditam que por nunca ter se recuperado das críticas feitas por Lobato ao seu trabalho. A pintora volta a lecionar e desenvolve séries de florais e retratos — temas mais comerciais na época. “Todo movimento precisa ter uma vítima e um inimigo. Anita foi a vítima do modernismo brasileiro e o Lobato o vilão.  Mas Anita tinha um relacionamento profissional com Lobato, que manteve depois da crítica. Mas de fato ela  buscou, no seu retorno de Paris, a sobrevivência”, explica Greggio.

Pintando a seu modo

O academicismo não agradou os companheiros modernistas. Ela chega a ter seu quadro Época da Colonização (1939) recusado no Salão Oficial de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1940, o que provoca o rompimento definitivo com Mario de Andrade, a quem Anita atribuiu a recusa. O amigo, desde sua volta de Paris, cobrava de Anita um retorno ao seu estilo mais contundente. O quadro também é um dos destaques da mostra de Brasília.

Um ano após a morte de sua mãe, em 1955, Anita é convidada a expor no MASP e se mostra uma artista mais popular, exibindo suas últimas produções (1940-1950) – obras que refletiam os costumes e as belezas do interior brasileiro: Batizado na roça, Colheita de algodão, Casamento na roça e O baile são algumas de suas obras que expressam essa fase. “Tomei a liberdade de pintar ao meu modo”, era o nome da exposição e uma indicação de que as críticas não lhe importavam mais.

Cada vez mais recolhida em sua chácara em Diadema, Anita jamais parou de pintar e no final da vida dedicou-se aos temas religiosos. “A comemoração desses 120 anos de Anita vem para homenagear a ousadia da mulher em buscar seu sonho, em se encontrar. A percebo como um ícone injustiçado. Os contemporâneos, por conta de ciúmes, vaidade, talvez, atrapalham a avaliação na época de um talento como Anita. É por isso que muitos gênios são reavaliados e exaltados com o passar do tempo. Foi o caso dela.”

Fotos da exposição - Anita Malfatti

Fotos da exposição - Anita Malfatti

Retrospectiva Anita Malfatti – 120 anos

De 23 de fevereiro a 25 de abril de 2010

CCBB Brasília – Galerias 1 e 2

De terça a domingo, das 9h às 21h

SCES, Trecho 02, lote 22

Tel: 3310-7087

Entrada da gratuita

Classificação livre

Fonte: CCBB Brasília