Vicente José de Oliveira Muniz (São Paulo SP 1961). Fotógrafo, desenhista, pintor e gravador. Cursa publicidade na Fundação Armando Álvares Penteado - Faap, em São Paulo. Em 1983, passa a viver e trabalhar em Nova York. Realiza, desde 1988, séries de trabalhos nas quais investiga, principalmente, temas relativos à memória, à percepção e à representação de imagens do mundo das artes e dos meios de comunicação. Faz uso de técnicas diversas e emprega nas obras, com freqüência, materiais inusitados como açúcar, chocolate líquido, doce de leite, catchup, gel para cabelo, lixo e poeira. Em 1988, realiza a série de desenhos The Best of Life, na qual reproduz, de memória, uma parte das famosas fotografias veiculadas pela revista americana Life. Convidado a expor os desenhos, o artista fotografa-os e dá às fotografias um tratamento de impressão em periódico, simulando um caráter de realidade às imagens originárias de sua memória. Com essa operação inaugura sua abordagem das questões envolvidas na circulação e retenção de imagens. Nas séries seguintes, que recebem, em geral, o nome do material utilizado - Imagens de Arame, Imagens de Terra, Imagens de Chocolate, Crianças de Açúcar etc. -, passa a empregar os elementos para recriar figuras referentes tanto ao universo da história da arte como do cotidiano. Seu processo de trabalho consiste em compor as imagens com os materiais, normalmente instáveis e perecíveis, sobre uma superfície e fotografá-las. Nessas séries, as fotografias, em edições limitadas, são o produto final do trabalho. Sua obra também se estende para outras experiências artísticas como a earthwork e as questões envolvidas no registro dessas criações.
Fonte: Itaú Cultural
Atualizado em 22/06/2009
Acervos importantes
As fotografias feitas por Vik Muniz fazem parte do acervo particular e de galerias em São Francisco, Madri, Paris, Moscou e Tóquio, além de museus como Tate Modern e o Victoria & Albert Museum, em Londres, o Getty Institute, de Los Angeles, e o MAM, em São Paulo. A obra “Boom”, integrante da série “The Sarzedo Drawings”, de 2002, fotografia de gelatina de prata com viragem, está disponível a apreciação no Museu do Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais.
Críticas
“Antes de mais nada Vik estabelece uma relação entre desenho e fotografia, entre memória e presente, já que toma como ponto de partida e reminiscência de uma imagem célebre, por exemplo, a de John Lennon em Manhattan. Ele desenha o clichê de memória.
Nessa etapa, a aptidão mais solicitada é a da retenção, como se todas as reproduções dessa imagem tivessem desaparecido e como se contássemos apenas com o talento e a memória de Vik para fazê-la renascer. Às vezes, ele interroga pessoas para completar esse quebra-cabeça.
Pouco a pouco, a figura trágica do Beatle aparece, como se estivesse em via de se compor na bacia do revelador. Obviamente, a imagem foi congelada para sempre nos olhos do público, verdadeiramente síntese do que se iria passar: seja o nome da cidade onde seria assassinado, escrito sobre sua camiseta, os braços cruzados como se esperasse seu carrasco e os óculos escuros de star.
Ele desenha o rosto de esfinge do membro mais articulado do conjunto de rock e, finalmente, a grade atrás dele. No entanto, o desenho não é o produto final de Vik. O desenho conserva os traços de suas luta mortal contra o esquecimento. Então, ele fotografa o desenho e o desenvolve sobre um papel que possa dar a mesma granulação que uma radiofoto.
Procede da mesma maneira com a lembrança do primeiro homem que pisou o solo lunar, a da execução de um vietcongue suspeito, a da menina que corre nua pela estrada após a queda do napalm. Todos esses clichês são provenientes da seleção das melhores fotos produzidas pela revista Life, primeiro livro que Vik comprou nos Estados Unidos assim que chegou lá, em 1983, quando possuía um conhecimento rudimentar do inglês.
A série ‘O melhor da Life", realizada entre 1988 e 1990, remete então à recaptura de um momento em que se sentia exilado, perdido e isolado. Para ser artista, lhe faltou reproduzir este estado, como se o resgate do tempo reencontrado lhe fornecesse a chave definitiva de sua vocação”.
Nelson Aguilar
“Há em Vik Muniz (…) alguns traços que gostaríamos de abordar. Primeiramente, seu empenho no ‘fazer", e não apenas na concepção de um trabalho, que é a tônica de sua produção. Nesse ‘fazer", está implícito seu domínio técnico para levar a cabo uma idéia. Podendo partir da cópia de uma obra de arte ou de uma fotografia, minuciosamente, com competência, pinça determinados artistas da história da arte – Corot, Coubert, Monet, Da Vinci, Caravaggio, Rothko, Morris – pelo desafio ou pela admiração? – reproduzindo a obra de ‘outro" à sua maneira. (…)
No caso de Vik Muniz, quando reproduz à sua maneira a obra de ‘outro", referimo-nos aos materiais por ele utilizados, diversos daqueles empregados na obra selecionada por sua vontade. Fotografias reproduzidas com açúcar ou com detritos de lixo, ou uma Santa Ceia recriada com chocolate líquido implicam numa licença poética de alto teor de criatividade. Sabe-se que, na história da arte, este artista não está só em seus procedimentos. Já Arcimboldo, no século XVI, compunha, com rara iventividade, perfis de personagens em ‘assemblages" artificiosos de legumes, frutas e vegetais. (…)
Na série elaborada com chocolate líquido, por exemplo, sabemos que Vik reconstruiu essas imagens através de um conta-gotas, com paciência quase oriental, e esse procedimento continuou ao fotografar rapidamente a imagem fixada (…) em Cibachrome. O processo do artista, decididamente maneirista, surpreende tanto pela similitude da imagem original com aquela reproduzida como pelo frescor do brilho reluzente da deliciosa coloração do chocolate que aflora nesses trabalhos. (…)
Poder-se-ia assinalar ser o seu um procedimento herdado do movimento pop dos anos 60? Talvez, pois os artistas dessa década (seja Jasper Johns, como Oldenburg, Warhol ou Lichtenstein, só para citar alguns poucos) copiaram ad infinitum páginas de jornais, fotografias de pessoas célebres, repintaram latas de cerveja ou representaram latas de sopa, reconstituiram anúncios e ambientes típicos da cultura visual norte-americana do tempo, com leveza e senso de humor que também se aproxima daquele implícito no fazer artístico de Vik Muniz.
A cópia e o múltiplo, já se sabe, existem desde que as máquinas foram inventadas. E Vik Muniz nelas se baseia, ao fazer da fotografia o produto final de seu trabalho. É por essa razão que temos sempre em mente este artista plástico, desenhista, pintor que se utiliza da linha, ou de técnicas mistas, mas que opta pela fotografia, com tiragem limitada para cada trabalho. Está, assim, dentro de seu tempo e, simultânea e contraditoriamente, fora dele, ao fazer do estritamente artesanal, manual, seu processo de trabalho. Que por esta mesma razão, surpreende-nos e intriga-nos pelo latente paradoxo entre o processo e o instigante resultado final. (…)
Mas essa é apenas uma das facetas da produção de Vik Muniz. Como desenhista, emerge pleno de poesia quando seu traço flui em linearidade pura com um singelo fio de arame, fixando, com economia máxima, objetos do cotidiano, um balanço, um rolo de papel higiênico, um vestido leve de verão secando no varal. Imagens elaboradas para posterior documentação fotográfica, sempre produto final de seus trabalhos. Nesta série em particular, ele vem nos demonstrar que a poética está viva quando existe domínio técnico, quando uma idéia norteia a obra, quando há um conceito a perseguir, enfim. (…)
Outro dado que impressiona neste artista é que ele não cultiva a cópia como mera releitura ou captação de um processo apenas para a obtenção da composição de uma imagem (…). Ele não está interessado apenas em cópias perfeitas, pastiches de obras reconhecidas ou de fotos famosas. O que se percebe, ao mesmo tempo em que se nota com clareza seu virtuosismo e erudição, é que, a partir de uma imagem – a partir de uma representação – na solidão da paciente elaboração de seus trabalhos, ocorre uma positiva diversidade na opção de meios para suas ‘matrizes" – papéis perfurados, algodão, chocolate líquido, açúcar, lixo, arame, poeira, serragem, geléia, doce de leite, alfinetes, pantone. Entretanto, o êxito que tem rodeado suas apresentações é também um desafio, pelo excesso de assédio do mercado e das instituições. Que resista, portanto, com o necessário controle de qualidade, para que nos mantenhamos neste encantamento frente à humorosa, extraordinária feição lúdica, ‘divertente", maravilhosa, do ato criativo em Vik Muniz”.
Aracy Amaral
Análise de Pedro Vasquez
Exposições Individuais
1988
Nova York (Estados Unidos) – Individual, na PS122
Nova York (Estados Unidos) – Individual, na Stux Gallery
1989
Nova York (Estados Unidos) – Individual, na Stux Gallery
1990
Nova York (Estados Unidos) – Individual, na Stux Gallery
San Francisco (Estados Unidos) – Individual, na Stephan Wirtz Gallery
Santa Monica (Estados Unidos) – Individual, na Meyers/Bloom Gallery
1991
Barcelona (Espanha) – Individual, na Galeria Berini
Colônia (Alemanha) – Individual, na Kicken-Pausebach
Nova York (Estados Unidos) – The Best of LIFE, na Stux Gallery
Paris (França) – Individual, na Galerie Claudine Papillon
São Paulo SP – Individual, no Gabinete de Arte Raquel Arnaud
1992
Luxemburgo (Luxemburgo) – Individual, na Gallerie Beaumont
Nova York (Estados Unidos) – Individual, na Stux Gallery
Turin (Itália) – Individual, na Claudio Botello Arte
1993
Nova York (Estados Unidos) e Verona (Itália) – Equivalents, na Tricia Collins Contemporary Art e na Ponte Pietra Gallery
1994
Nova York (Estados Unidos) – Representations, na Wooster Gardens
Turin (Itália) – Individual, na Galeria Claudio Botello
1995
São Paulo SP – The Wire Pictures, na Galeria Camargo Vilaça
1996
Curitiba PR – Individual, na Galeria Casa da Imagem
Nova York (Estados Unidos) – The Best of Life, na Wooster Gardens
Nova York (Estados Unidos) – The Sugar Children, na Tricia Collins Contemporary Art
San Francisco (Estados Unidos) – Pantomimes, na Rena Bransten Gallery
São Paulo SP – Individual, na Galeria Camargo Vilaça
Nova York (Estados Unidos) – Pictures of Thread, no Wooster Gardens
1997
Santa Monica (Estados Unidos) – Individual, na Dan Bernier Gallery
São Paulo SP – Individual, na Galeria Camargo Vilaça
1998
Lisboa (Portugal) – Individual, na Galeria Módulo
Nova York (Estados Unidos) – Flora Industrialis, no Brent Sikkema Gallery
Nova York (Estados Unidos) – Seeing is Believing, no International Center of Photography
San Francisco (Estados Unidos) – Individual, na Rena Bransten Gallery
1999
Chicago (Estados Unidos) – Seeing is Believing, no Museum of Contemporary Photography, Columbia College
Estocolmo (Suécia) – Individual, na Galeri Lars Bohman
Honolulu (Estados Unidos) – Individual, no The Contemporary Museum
Milão (Itália) – Individual, no Photo & Co
Nova York (Estados Unidos) – Beyond the Edges, no The Metropolitan Museum of Art
Paris (França) – Flora Industrialis, na Caisse des Dèpôts et Consignations
Paris (França) – Fresh Paint, na Galerie Renos Xippas
Paris (França) – Individual, no Centre National de la Photographie
Roma (Itália) – Individual, na Gian Enzo Sperone Gallery
Tucson (Estados Unidos) – Seeing is Believing, Center for Creative Photography, The University of Arizona
2000
Amsterdã (Holanda) – Individual, na Foundation Huis Marseille
Honolulu (Estados Unidos) – Seeing is Believing, no The Contemporary Museum
Lausanne (Suíça) – Images Pièges, no Musée de l´Elysee
Nova York (Estados Unidos) – Photographs & Personal Articles, na Ubu Gallery
Nova York (Estados Unidos) – Pictures of Ink, na Brent Sikkema Gallery
Pittsburgh (Estados Unidos) – Clayton Days: picture stories, no The Frick Art & Historical Center
San Francisco (Estados Unidos) – Earthworks, na Rena Bransten Gallery
São Paulo SP – O Objeto Invisível, na Galeria Camargo Vilaça
Saratoga Springs (Estados Unidos) – Vik Muniz: a retrospective, no The Tang Teaching MuseumArt Gallery at Skidmore College
Tóquio (Japão) – Individual, na Gallery Gan
2001
Madri (Espanha) – Individual, na Galería Elba Benítez
Nova York (Estados Unidos) – The Things Themselves: pictures of dust, no Whitney Museum of American Art
Recife PE – Ver é crer, no Mamam
Rio de Janeiro RJ – Ver para Crer, no MAM/RJ
São Paulo SP – Clayton Days: picture stories, no Instituto Cine Cultural
São Paulo SP – Individual, na Galeria Fortes Vilaça
São Paulo SP – Ver para Crer, no MAM/SP
2002
Fortaleza CE – Pictures of Earthworks: the Sarzedo drawings, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
2003
Rio de Janeiro RJ – Retratos de Revista, no Paço Imperial
São Paulo SP – Vik Muniz: trabalhos monádicos e fotografias, na Galeria Fortes Vilaça
2004
São Paulo SP – Retratos de Revista, na Pinacoteca do Estado